Toda vez que você entra numa loja, sai algo sem passar pelo caixa. Às vezes é uma pessoa que furtou. Às vezes é um erro operacional. Às vezes é uma fraude de fornecedor. E cada vez mais, em farmácias, é uma caixinha de medicamento de R$ 1.200 que sumiu.
Somado, esse vazamento silencioso custou ao varejo brasileiro R$ 42 bilhões em 2025, com base numa venda total do comércio varejista de R$ 2,59 trilhões no ano passado. O número foi calculado pelo Valor Econômico a partir de dados da 9ª Pesquisa Abrappe de Prevenção de Perdas no Varejo Brasileiro, publicada esta semana pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas.
Para ter uma ideia de escala: esse montante equivale a quase uma vez e meia a receita líquida anual da Casas Bahia, e ao dobro da receita do GPA, empresa dona da rede Pão de Açúcar, no ano passado.
O número que mais preocupa não é o valor absoluto. É a trajetória.
O índice médio de perdas atingiu o maior nível da história recente em 2025, passando de 1,51% em 2024 para 1,65% das vendas. Em cinco anos, o setor saiu de um índice de 1,21% em 2021, o menor da série, para esse recorde.
Traduzindo: as perdas cresceram 36% em proporção às vendas em apenas cinco anos. Enquanto o faturamento do varejo cresceu 6,4% em 2025, as perdas cresceram 9,27% no mesmo período. O problema está ficando mais caro mais rápido do que o setor consegue vender.
A instabilidade maior se viu a partir de 2021, com o avanço no número de companhias em recuperação judicial e extrajudicial, e também com as reestruturações consecutivas de negócios, que levaram a um corte de custos nas empresas, inclusive na área de controle de perdas. Na prática: as empresas enxugaram justamente as equipes responsáveis por conter o sangramento.
Os vilões do levantamento
A pesquisa, feita em parceria com a consultoria Protiviti, analisou segmentos que vão de alimentos a material de construção, passando por artigos esportivos, perfumarias e eletromóveis. Os resultados são assimétricos, e essa assimetria conta uma história importante.
O segmento que mais contribuiu para a elevação do índice foi o de lojas de conveniência, cujo índice de perda passou de cerca de 3% para 3,80% de 2024 para 2025. Nas perfumarias, a alta também foi relevante, com o indicador indo de 1% para 1,55%.
Conveniências e farmácias têm algo em comum: produtos de alto valor unitário, expostos em gôndolas de fácil acesso, com alto giro e pouca vigilância dedicada por item. É o ambiente ideal para furto de oportunidade, e a adoção massiva de medicamentos como Ozempic e Wegovy criou uma nova categoria de produto cobiçado nas prateleiras. Uma embalagem pequena, discreta, e cara o suficiente para transformar qualquer pessoa em ladrão em potencial.
O segmento de eletromóveis registrou o pior desempenho relativo do levantamento: alta de 278,2% nas perdas totais e crescimento de 641,8% nas perdas não identificadas, categoria que engloba furtos e fraudes em operações omnichannel. O termo "perdas não identificadas" é particularmente revelador: não se sabe se foi furto externo, furto interno, fraude de fornecedor ou erro no processo. Simplesmente sumiu.
Quem está indo na direção contrária
Nem tudo é pessimismo. A pesquisa também identificou casos de melhora expressiva, e o denominador comum entre eles é tecnologia aplicada com seriedade.
Atacarejos registraram queda de 22,8% nas perdas, consolidando-se como o formato mais eficiente na gestão do problema. Artigos esportivos apresentaram redução de 63,2% nas perdas não identificadas, resultado atribuído ao uso de RFID e controles antifurto.
RFID é uma tecnologia de rastreamento por radiofrequência que permite identificar a localização de cada item do estoque em tempo real. Quando um produto sai da loja sem ser lido pelo caixa, o sistema acusa. Não é novidade, mas ainda é minoria no varejo brasileiro.
O contraste é didático: quem investiu em tecnologia de prevenção reduziu perdas em mais de 60%. Quem não investiu viu o índice explodir.
O custo invisível que todo consumidor paga
Existe uma dimensão desse problema que raramente aparece nas análises setoriais: quem absorve o custo das perdas não é só o varejista. É o consumidor.
Quando uma rede de farmácias perde 3,8% do faturamento em produtos que somem das prateleiras, essa perda entra no cálculo de precificação dos produtos que ficam. O preço do shampoo, do analgésico e do suplemento que você compra carrega embutido o custo do que foi furtado antes de você chegar.
É uma espécie de imposto invisível pago por quem compra honestamente para cobrir o prejuízo causado por quem não compra. No Brasil, esse imposto chegou a R$ 42 bilhões em 2025.
A dimensão digital do problema
As perdas do varejo físico não existem num vácuo. Elas convivem com um ecossistema de fraude digital igualmente preocupante, e os dois mundos se cruzam cada vez mais nas operações omnichannel — aquelas em que o cliente compra online e retira na loja, ou devolve em loja o que comprou no aplicativo.
O Brasil registrou 2,8 milhões de tentativas de fraude no e-commerce em 2024, somando R$ 3 bilhões em valores potencialmente perdidos, segundo o Mapa da Fraude 2025 da ClearSale. O ticket médio das transações fraudulentas subiu para R$ 1.072,33, um aumento de 9,8% em relação ao ano anterior. Os fraudadores estão ficando mais seletivos: menos operações, valores maiores.
É nesse ambiente que a categoria de "perdas não identificadas" do eletromóvel explodiu 641%. O omnichannel criou janelas de fraude que o varejo ainda não sabe fechar direito.
O que o setor precisa fazer
A pesquisa da Abrappe não deixa margem para interpretação: o problema está sistematicamente pior, e as empresas que tentaram resolver via corte de custos na área de prevenção produziram o efeito oposto ao desejado.
Os caminhos que funcionaram têm três características em comum. Primeiro, investimento em tecnologia de rastreamento, especialmente RFID em categorias de alto valor. Segundo, integração entre os canais físico e digital para fechar as brechas omnichannel. Terceiro, manutenção das equipes de prevenção de perdas como centro de custo estratégico, não como candidato a corte nas reestruturações.
O atacarejo, que registrou queda de quase 23% nas perdas, opera com margens muito mais apertadas do que o varejo especializado. Se esse formato conseguiu melhorar o índice num ambiente de margem estreita, a explicação não é dinheiro disponível para investir. É prioridade gerencial.
Por que isso importa
R$ 42 bilhões em perdas no varejo é um número grande o suficiente para parecer abstrato. Mas ele tem consequências muito concretas na cadeia econômica do país.
Para o varejo, é rentabilidade destruída num setor que opera com margens historicamente baixas. Para o consumidor, é inflação invisível embutida nos preços de prateleira. Para o mercado de trabalho, é pressão adicional por cortes de custo que, como a própria pesquisa mostrou, frequentemente pioram o problema que tentam resolver.
E para quem está pensando em investir no setor, é um sinal de alerta: a eficiência operacional no controle de perdas está se tornando um diferencial competitivo real, não um detalhe de back office. As empresas que entenderem isso primeiro vão sair na frente num setor onde a diferença entre lucro e prejuízo pode ser medida em décimos de percentual das vendas.
