A esquerda e a direita adoram subir no palanque para jurar que são arqui-inimigas, mas quando o assunto é prometer almoço grátis com o bolso dos outros na véspera de eleição, o amor fustiga e ninguém larga a mão de ninguém. Em uma votação quase unânime de 461 a 19, os deputados aprovaram a PEC que reduz a jornada máxima para 40 horas e exige dois dias de descanso por semana, com prazo de implementação de dar frio na espinha de qualquer dono de padaria ou comércio de bairro: apenas dois meses para começar a valer. O texto proíbe expressamente a redução de salários, o que na teoria do Twitter parece o ápice da justiça social, mas na economia real significa um salto imediato nos custos operacionais de serviços essenciais.
A grande ironia é que o Brasil está tentando inventar a roda da produtividade por decreto. Embora dezenas de países regulem o teto de horas semanais, quase nenhum se atreve a colocar na própria Constituição uma proibição explícita de como o comércio divide os seus dias de funcionamento. Os deputados, acuados pelo tribunal das milícias digitais e pelo pânico de virarem meme de vilão na internet, decidiram que a economia que lute. O resultado prático? Se o custo para manter o balcão aberto sobe, o repasse para os preços é tão inevitável quanto a chuva de verão em São Paulo. O trabalhador ganha o domingo de folga, mas corre o risco de gastar o dobro pelo quilo do pão na segunda-feira.
Por que isso importa: A canetada joga uma pressão brutal sobre o setor de comércio, serviços e restaurantes, que já operam com margens de lucro magras. Sem um período de transição decente de vários anos — como aconteceu em todos os países ricos que reduziram jornadas —, o choque pode gerar uma onda de demissões ou empurrar milhares de trabalhadores de volta para a informalidade do "bico". Agora, os holofotes se voltam para o Senado, que historicamente atua como o "adulto na sala" para barrar os delírios populistas da Câmara e já costura propostas alternativas, como o projeto de jornada flexível do senador Rogério Marinho.
Sim, mas... É fascinante observar o pânico coordenado das confederações empresariais correndo pelos corredores de Brasília com apresentações de Powerpoint para tentar explicar o conceito básico de "custo Brasil" para quem só pensa em reeleição. Quebrando a quarta parede: todos nós adoraríamos trabalhar menos e ganhar a mesma coisa — se o gênio da lâmpada existisse, a jornada de 3 dias seria lei. O problema é que o Congresso vota o bônus de braços dados com o povo, e deixa o ônus para o empresário se virar para fechar o caixa na ponta do lápis.
No fim do dia, se o Senado não colocar um freio de arrumação e desenhar uma transição realista, o Brasil vai descobrir da pior maneira que a produtividade nacional não aumenta só porque o Diário Oficial mandou.
Se a moda de revogar as leis da matemática por votação no plenário pegar, o próximo passo do Congresso vai ser aprovar uma PEC proibindo a inflação de subir e decretando que o salário mínimo agora vale em dólar.