O GLP-1 deixou de ser notícia de saúde e virou notícia de negócios. E os números que vieram a público ontem, num evento organizado pela Pague Menos e pelo Itaú BBA em São Paulo, mostram um fenômeno que ainda está só começando.

Os números que mudam o tamanho da conversa

Começa pelo varejo farmacêutico como um todo. O setor vendeu R$ 255 bilhões nos 12 meses até abril, uma alta anual de 11,7%. Os medicamentos à base de GLP-1 responderam por 85% desse crescimento: sem eles, a expansão teria ficado em 8,6%. Os dados são da IQVIA, empresa especializada em pesquisa de saúde.

Pense nesse número por um segundo. Quase todo o crescimento acima da linha de base do varejo farmacêutico brasileiro veio de uma única classe de remédio. Isso não é tendência. É ruptura.

As vendas dos GLP-1 cresceram 110% em 12 meses e chegaram a R$ 14,6 bilhões, representando 5,7% de todos os remédios vendidos no País.

Para contextualizar: em 2023, esse número não existia no radar do mercado de forma relevante. Em dois anos, virou quase 6% de tudo que o Brasil compra em farmácia.

Quem está usando e quem ainda não está

Hoje, 4,6% dos domicílios brasileiros consomem algum desses medicamentos. Nos Estados Unidos, o percentual é de 12%.

Isso é ao mesmo tempo um indicador de atraso e um mapa do potencial. Se o Brasil seguir a trajetória americana, ainda tem muito espaço pela frente. A diferença é que, nos EUA, o processo aconteceu com maior acesso via planos de saúde e com preços subsidiados. Aqui, o caminho é mais complicado.

Entre os brasileiros que ainda não usam esses medicamentos, 16% dizem que o impeditivo é o preço, 10% citam medo de efeitos colaterais, 7% não conhecem os medicamentos e 62% afirmam não ter interesse.

O dado dos 62% que "não têm interesse" merece uma nota de ceticismo: na medicina comportamental, falta de interesse muitas vezes é falta de informação ou de acesso disfarçada de escolha. Quando o preço cair, esse número provavelmente vai mudar.

O preço está caindo. Mas tem um porém.

A EMS foi a primeira farmacêutica autorizada pela Anvisa a comercializar um análogo ao Ozempic. O medicamento chegará ao mercado na próxima semana custando cerca de R$ 300 por mês nos primeiros três meses. O VP Marcus Sanchez fez questão de traduzir: dez reais por dia, e a economia em gastos com comida e outros remédios pode compensar o custo.

É um argumento com alguma base, mas que precisa de muita contextualização antes de virar manchete. Dez reais por dia é R$ 300 por mês, o que para uma parcela enorme da população brasileira é um gasto inviável para qualquer coisa que não seja necessidade básica imediata. E o acesso ao crédito para esse tipo de gasto de saúde ainda é limitado.

O ponto otimista é que a concorrência vai derrubar o preço. O evento mostrou o caso do Poviztra, da Eurofarma em parceria com a Novo Nordisk: quando o medicamento começou a ser vendido com desconto médio de 41% entre março e abril, o volume vendido aumentou 178%. A elasticidade de preço aqui é enorme.

O elefante na sala: o mercado ilegal

Tem um dado que foi apresentado no evento e que deveria causar muito mais barulho do que causou. Segundo Marcus Sanchez, da EMS, o contrabando e os medicamentos manipulados de forma irregular respondem por 75% de tudo que é comercializado no País na categoria GLP-1.

Três quartos do mercado. Irregular ou contrabandeado.

Isso não é problema só de concorrência desleal para as farmacêuticas. É um risco real de saúde pública. GLP-1 não é suplemento de academia. É hormônio injetável que muda a forma como o corpo processa glicose e regula o apetite. Aplicar qualquer coisa de procedência desconhecida num mecanismo desse é genuinamente perigoso.

Leonardo Bia, VP da Novo Nordisk, chamou de "vazio assistencial" o fato de o GLP-1 não estar no SUS nem no rol da ANS, o que ajuda a alimentar o mercado ilegal. A lógica é direta: quando o produto oficial é caro e o acesso pelo sistema público é inexistente, o mercado paralelo preenche o espaço. Sempre preenche.

O dilema dos planos de saúde

Essa é a parte mais estrategicamente interessante de toda a discussão. Para Vicente Lapenta, diretor da Porto Saúde, esses medicamentos deveriam entrar no rol da ANS porque tenderiam a reduzir as internações, que respondem por 50% das despesas das operadoras.

Mas o problema é de janela temporal. Lapenta disse que o desafio é como colher os benefícios à frente considerando o turnover nas empresas: a Porto pode pagar o custo do GLP-1 hoje e ver um concorrente ganhar com a redução da sinistralidade no futuro.

É um problema clássico de horizonte de investimento. O benefício de uma pessoa mais saudável aparece em 5 ou 10 anos. O custo do remédio aparece na fatura do mês que vem. Enquanto os convênios não conseguirem capturar o benefício de longo prazo, o incentivo para pagar agora é fraco.

Como o GLP-1 está chegando em outros setores

O impacto já sai das farmácias e chega em lugares inesperados, o que é sempre o sinal de que uma tendência virou algo estrutural.

A Riachuelo está medindo isso em centímetros de cintura. Na varejista, houve uma redução média de 5% na grade de tamanhos, e a empresa espera uma contração de quase 6% no mercado plus size em 2026, depois de anos de crescimento.

A Heineken está medindo em teor alcoólico: o consumidor está bebendo menos e querendo melhor, o que levou a empresa a lançar uma linha com menos calorias e menos álcool.

A Azul está medindo em quilogramas por passageiro. O CEO John Rodgerson espera economizar combustível com o emagrecimento dos clientes: se cada passageiro perder 2 quilos, a estimativa é de uma economia de cerca de R$ 3 milhões por mês. Rodgerson chegou a mencionar que as companhias aéreas medem até a gramatura das revistas de bordo no cálculo de combustível. Saber que agora incluem peso de corpo humano na equação diz tudo.

Por que isso importa

O GLP-1 não é uma febre passageira de emagrecimento. É uma intervenção farmacológica que está mudando o comportamento de consumo em escala suficiente para aparecer nos balanços de empresas que não têm nada a ver com saúde.

Quando uma companhia aérea começa a projetar economia de combustível baseada no peso médio dos passageiros, quando uma varejista de moda reposiciona sua grade de tamanhos e quando um fabricante de cerveja lança produto menos calórico por causa de uma classe de remédio, estamos diante de uma mudança de base, não de nicho.

Para o investidor brasileiro, a pergunta relevante não é "será que o GLP-1 vai pegar?" Já pegou. A pergunta é: quais empresas estão se posicionando para capturar esse mercado e quais vão ser pegas desprevenidas?

O varejo farmacêutico está na posição óbvia de beneficiário direto. Mas, dependendo de como o preço evoluir e se o SUS ou os planos eventualmente cobrirem esses medicamentos, o efeito cascata vai atingir desde fabricantes de alimentos ultraprocessados até construtoras que projetam largura de corredores em shoppings.

E tem um número que resume tudo isso: executivos presentes ao evento não veem o governo federal incluindo esses medicamentos no SUS num futuro próximo, citando falta de recursos, mas acreditam que prefeituras e governos estaduais com caixa podem ser mais ágeis e disponibilizar remédios à base de GLP-1 nos próximos meses.

Quando a distribuição pública chegar, ainda que parcialmente, a curva vai subir rápido. E quem não estiver pronto vai sentir.