A Faria Lima passou meses prevendo uma ressaca econômica generalizada para o início do ano, mas o consumidor brasileiro decidiu ignorar os relatórios em PDF e continuou gastando o dinheiro que tinha (e o que não tinha). O crescimento de 1,1% foi puxado quase inteiramente pelo setor de serviços, que engloba desde o salão de beleza e a academia até o software de gestão corporativa e os shows de estádio lotados. A indústria deu seus tropeços e a agropecuária teve que lidar com as marcas do clima, mas a resiliência do mercado de trabalho — combinada com o aumento real do salário mínimo — manteve a roda do comércio girando em uma velocidade que ninguém ousava colocar nos gráficos de projeção oficial.
A grande ironia é que a economia brasileira continua funcionando na base do "apesar de tudo". Temos juros nas alturas que deveriam, por pura teoria macroeconômica, congelar qualquer ímpeto de consumo ou investimento produtivo. Mas o brasileiro desenvolveu uma espécie de imunidade psicológica ao custo do crédito. A indústria reclama que está caro investir em máquinas novas, o empresário chora o custo do imposto, mas no final do dia, se tem uma vaga de emprego aberta e um Pix disponível na conta, a população vai para a rua consumir, transformando as previsões sombrias dos analistas de terno em pura ficção científica.
Por que isso importa: Esse resultado traz um alívio gigantesco para a equipe econômica do governo, que precisava de um dado forte de atividade para acalmar o humor do mercado financeiro e garantir que a arrecadação de impostos não vai desabar. No entanto, o crescimento concentrado em serviços é um sinal de alerta de médio prazo. Para que o país mantenha esse ritmo sem gerar um surto inflacionário lá na frente, é preciso que a indústria e os investimentos em infraestrutura (como fábricas e estradas) também saiam da inércia. Sem investimentos estruturais, crescer na base do consumo é como tentar manter a velocidade de um carro apenas pisando no acelerador enquanto o tanque está furado.
Sim, mas... É sempre divertido ver a ginástica retórica que acontece em Brasília e São Paulo após a divulgação do PIB. O governo corre para as redes sociais para reivindicar a paternidade do "milagre econômico", enquanto a oposição jura de pé junto que o resultado é apenas uma bolha prestes a estourar no próximo trimestre. Quebrando a quarta parede: todos nós sabemos que o cidadão médio não almoça PIB. Se o indicador subiu 1,1%, mas o preço do plano de saúde aumentou dois dígitos e a fatura do supermercado continua parecendo a compra de um terreno, o sentimento na mesa do jantar é de que a estatística oficial mora em um país bem diferente do nosso.
No final das contas, o Brasil começou o ano mostrando que é mais forte do que o pessimismo dos economistas, mas ainda precisa provar que esse fôlego tem combustível para durar até o Natal.
Se a atividade econômica continuar surpreendendo desse jeito na base do consumo de serviços, o Banco Central vai acabar subindo os juros de novo só de raiva porque ninguém está obedecendo ao manual de como esfriar a economia.