Se você passar por algum posto de combustível e viu uma fila que parecia o primeiro dia de vendas do Rock in Rio, não se assuste. Lojistas e postos de todo o país estão realizando a 20ª edição do Dia Livre de Impostos (DLI).
A ideia é vender produtos cortando o valor equivalente aos tributos para esfregar na cara do consumidor o tamanho da mordida do Leão. E, claro, o grande chamariz da ação é sempre ela: a gasolina, comercializada em alguns postos participantes por valores muito abaixo da bomba.
A anatomia do preço: para onde vai o seu suado dinheiro?
Quando você para no posto e diz "põe 50 de gasolina", uma parte chocante desse dinheiro nem chega perto de virar combustível no seu motor. A carga tributária abocanha entre 35% e 40% do valor final da bomba.
Se pegarmos o preço médio nacional que flerta com os R$ 6,62, o desenho do bolo fica mais ou menos assim:
- R$ 2,25 vão direto para os cofres públicos em impostos federais (PIS/Cofins e Cide) e estaduais (ICMS).
- R$ 1,57 é a fatia fixa apenas do ICMS, o imposto que os governadores arrecadam felizes a cada litro vendido.
- O resto: O valor que sobra precisa cobrir o custo de produção da refinaria, o transporte, as margens de lucro do posto e da distribuidora, e a mistura obrigatória de etanol anidro.
Por que isso importa
Porque o combustível é o motor invisível da inflação brasileira. Quando a gasolina ou o diesel sobem, não é só o motorista de aplicativo ou o dono de SUV que choram. O preço do tomate no supermercado, da blusinha no e-commerce e da passagem de ônibus aumentam na carona, já que quase tudo no Brasil roda em cima de caminhões.
O Dia Livre de Impostos serve para materializar um conceito abstrato. O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calcula que o brasileiro trabalha cerca de 149 dias por ano — quase cinco meses inteiros — apenas para pagar a conta dos governos. Ver o preço cair drasticamente na ação mostra o tamanho do peso que o cidadão carrega nas costas diariamente.
A nossa opinião: A iniciativa de vender gasolina sem imposto é excelente para gerar conscientização, mas o formato de "limite de litros por carro com fila quilométrica" é quase uma metáfora perfeita do Brasil. Você perde três horas de trabalho para economizar trinta reais, enquanto o Impostômetro da Associação Comercial já marcou mais de R$ 760 bilhões arrecadados só nos primeiros meses deste ano.
O debate sobre a Reforma Tributária continua se arrastando nos bastidores de Brasília com a promessa de simplificar o sistema, mas ninguém lá dentro parece muito empolgado em diminuir o tamanho da mordida. No fim das contas, o "Impostossauro" — o mascote oficial da campanha — continua vivo, forte e com um apetite voraz pelo nosso bolso.
Ver o preço da gasolina sem imposto é igual a olhar foto de viagem de férias antiga: dá uma alegria momentânea, mas logo depois vem a depressão de lembrar da realidade.