Se a sua meta de ano novo era fechar o mês no azul, mas você passou o rodo no cartão de crédito em abril, console-se: o governo brasileiro está fazendo exatamente a mesma coisa, só que com alguns zeros a mais na fatura. O Banco Central divulgou o relatório fiscal e o veredito é preocupante. A dívida pública não para de engordar, impulsionada pelos juros persistentemente altos que encarecem o custo dos títulos que o governo emite para se financiar, combinados com um déficit primário que insiste em não ceder. Basicamente, arrecadar montanhas de impostos com o PIB de serviços em alta não está sendo suficiente para cobrir o apetite de Brasília por gastos públicos, gerando uma bola de neve contábil que empurra o endividamento do país para níveis desconfortáveis.

A grande ironia é que a equipe econômica passa metade do tempo desenhando arcabouços fiscais complexos e a outra metade explicando por que as metas de déficit zero precisam ser afrouxadas. É o clássico "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". O governo exige austeridade e compliance de todo o setor privado, mas na hora de cortar a própria carne e enxugar a máquina pública, a resposta padrão é sempre empurrar o teto de gastos um pouquinho mais para cima e torcer para o PIB crescer milagrosamente rápido.

Por que isso importa: O tamanho da dívida líquida em relação ao PIB é o termômetro que os investidores globais usam para decidir se o Brasil é um porto seguro ou um terreno perigoso para colocar dinheiro. Quando esse indicador sobe sem parar, o mercado reage aumentando a percepção de risco: o dólar sobe, as bolsas caem e os juros futuros disparam. Para você, que não trabalha no mercado financeiro, o impacto é direto no estômago. Juros estruturais mais altos significam que o financiamento do seu carro, a prestação do imóvel e o crédito para as empresas continuam pela hora da morte, travando o crescimento real do país.

Sim, mas... É fascinante observar a narrativa oficial de que "o endividamento está sob controle porque o perfil da dívida é de longo prazo". Quebrando a quarta parede: se você chegar no gerente do seu banco e disser que a sua dívida pessoal está sob controle só porque você parcelou o cheque especial em 60 vezes com juros escorchantes, ele provavelmente vai rir da sua cara. O governo brasileiro opera em um universo paralelo onde dever mais de dois terços de tudo o que o país produz em um ano é tratado como um mero detalhe estatístico a ser resolvido no próximo mandato.

No final das contas, o balanço fiscal de abril é aquele banho de água fria que lembra ao mercado que não existe almoço grátis em economia. Você pode até maquiar as projeções no PowerPoint, mas a matemática do caixa é implacável.

Se Brasília continuar achando que dívida pública se resolve apenas criando novos impostos e torcendo pelo melhor, em breve o país vai precisar de um mutirão do Serasa para renegociar o CPF da própria União.