Quando Evan Spiegel lançou o Snapchat, a ideia de que uma empresa poderia desafiar gigantes como Meta, Google ou Apple parecia improvável. Agora, o fundador da Snap está fazendo uma aposta ainda mais ousada: convencer consumidores a trocar a tela do smartphone por um par de óculos.
A companhia apresentou nesta semana o Specs, seu primeiro dispositivo de realidade aumentada voltado ao público geral. Os óculos custam US$ 2.195 — além de um depósito reembolsável de US$ 200 — e devem começar a ser entregues ainda este ano nos Estados Unidos, Reino Unido e França.
À primeira vista, o preço parece um obstáculo óbvio. Afinal, trata-se de um produto mais caro que muitos smartphones premium e que chega em um momento em que consumidores estão mais cautelosos com gastos discricionários. Mas o lançamento não é apenas sobre vender óculos. Ele representa a tentativa da Snap de participar da disputa mais importante da indústria de tecnologia: definir qual será a próxima plataforma computacional depois do smartphone.
A guerra pelo pós-smartphone começou
Durante quase duas décadas, o iPhone definiu a forma como bilhões de pessoas interagem com tecnologia. Aplicativos, redes sociais, comércio eletrônico e serviços digitais foram construídos em torno de uma premissa simples: existe uma tela no bolso do usuário.
Cada vez mais empresas acreditam que essa lógica está chegando ao limite.
Meta investiu dezenas de bilhões de dólares em realidade virtual e realidade aumentada. O Google voltou ao mercado de smart glasses em parceria com Samsung, Warby Parker e Gentle Monster. A Apple lançou o Vision Pro como sua aposta em computação espacial. Agora, a Snap quer convencer o mercado de que também merece um lugar nessa corrida.
A tese de Spiegel é relativamente simples: as pessoas estão cansadas de passar horas olhando para telas. Em sua visão, a próxima geração de dispositivos digitais será baseada em interfaces que misturam elementos virtuais ao mundo físico, permitindo que usuários consumam informação sem precisar olhar constantemente para um smartphone.
A vantagem da Snap é também seu maior risco
Diferentemente de Meta, Google e Apple, a Snap não possui um negócio bilionário capaz de financiar indefinidamente projetos experimentais.
A Meta gera dezenas de bilhões de dólares por ano com publicidade. O Google domina buscas e publicidade digital. A Apple possui uma das operações mais lucrativas do mundo. A Snap, por outro lado, ainda enfrenta dificuldades para alcançar níveis consistentes de rentabilidade desde que abriu capital.
Isso torna a aposta ainda mais arriscada.
Se o mercado de realidade aumentada realmente se tornar a próxima grande plataforma tecnológica, a Snap pode conquistar uma posição estratégica extremamente valiosa. Mas se a adoção demorar mais do que o esperado — algo comum em novas categorias de hardware — a empresa terá muito menos margem para absorver prejuízos do que seus concorrentes.
Não por acaso, as ações da companhia caíram após o anúncio, refletindo o ceticismo de investidores sobre o potencial comercial imediato do produto.
O mercado aprendeu com os erros da realidade virtual
Existe outro fator importante por trás da recepção cautelosa ao lançamento.
Nos últimos anos, o setor de tecnologia acumulou diversos exemplos de dispositivos inovadores que fracassaram comercialmente. O Vision Pro da Apple impressionou analistas e desenvolvedores, mas ainda não se tornou o produto revolucionário que muitos imaginavam. A Meta reduziu parte de suas ambições relacionadas ao metaverso após anos de investimentos bilionários. Mesmo produtos bem avaliados tecnicamente continuam enfrentando dificuldades para justificar preços elevados e convencer consumidores de que oferecem benefícios claros em relação ao smartphone.
Essa experiência tornou investidores mais cautelosos.
Hoje, não basta apresentar uma tecnologia impressionante. É preciso demonstrar que ela resolve um problema real e que existe demanda suficiente para sustentar um mercado de massa.
A inteligência artificial pode ser o diferencial
O momento do lançamento também ajuda a explicar por que empresas voltaram a acreditar nos óculos inteligentes.
Quando Google Glass foi lançado, mais de uma década atrás, a tecnologia simplesmente não estava pronta. Os dispositivos eram caros, limitados e pouco úteis para o usuário médio.
A inteligência artificial muda essa equação.
Os novos Specs permitirão que desenvolvedores criem experiências utilizando ferramentas como Claude Code, Codex e Cursor. Isso significa que os óculos poderão compreender contexto, responder perguntas, identificar objetos e executar tarefas de maneira muito mais sofisticada do que os dispositivos das gerações anteriores.
Em vez de apenas exibir informações na frente dos olhos do usuário, os óculos passam a funcionar como uma camada inteligente sobre o mundo real.
É justamente essa combinação entre IA e realidade aumentada que muitos executivos do setor acreditam ser a chave para substituir o smartphone ao longo da próxima década.
O desafio continua sendo convencer consumidores
Apesar de todo o entusiasmo tecnológico, existe uma questão que nenhuma empresa conseguiu resolver completamente.
As pessoas realmente querem usar óculos inteligentes todos os dias?
Essa pergunta continua em aberto.
Mesmo os Ray-Ban Meta, considerados um dos maiores sucessos recentes da categoria, ainda estão longe da adoção em massa observada em smartphones ou smartwatches. Convencer consumidores a incorporar um novo dispositivo à rotina exige mais do que inovação tecnológica. Exige conforto, utilidade, preço acessível e, principalmente, mudança de comportamento.
E é justamente aí que a maior aposta de Evan Spiegel se concentra.
Por que isso importa
O lançamento dos Specs não é apenas mais um anúncio de hardware. Ele representa mais um capítulo na disputa para definir o que vem depois do smartphone.
Meta, Google, Apple e agora Snap estão investindo bilhões de dólares em uma mesma tese: a de que a próxima grande plataforma computacional será baseada em dispositivos que misturam o mundo físico e o digital de forma quase invisível.
A questão não é mais se essa transição vai acontecer. A questão é quem conseguirá construir o produto que fará as pessoas abandonarem o hábito de olhar para uma tela centenas de vezes por dia.
Evan Spiegel acredita que a resposta pode estar em um par de óculos de US$ 2.195.
O mercado ainda não parece tão convencido.
