Passe alguns minutos acompanhando o noticiário econômico e você provavelmente concluirá que os maiores problemas do Brasil são inflação, juros, déficit fiscal e gastos públicos.

Mas pergunte diretamente aos brasileiros.

A resposta é outra.

Uma pesquisa nacional BTG Pactual/Nexus divulgada nesta semana mostra que a principal preocupação da população não é inflação, custo de vida ou juros. O topo da lista é ocupado por segurança, violência e criminalidade, apontados por 33% dos entrevistados. Em seguida aparecem saúde pública (25%) e corrupção (23%). Apenas depois surge o grupo formado por inflação, custo de vida e preços altos, citado por 11% dos participantes. Gastos públicos aparecem com 4%, enquanto juros são mencionados por apenas 2%.

O resultado revela uma desconexão importante entre os debates que dominam Brasília e o mercado financeiro e aquilo que efetivamente mobiliza o eleitor.

O Brasil econômico não é o Brasil eleitoral

Nos últimos meses, boa parte das discussões econômicas girou em torno da Selic, inflação persistente, gastos do governo e trajetória da dívida pública.

São temas relevantes.

Mas eles não necessariamente se traduzem em preocupação cotidiana para a maioria da população.

Quando uma pessoa sai de casa preocupada com assaltos, enfrenta dificuldades para conseguir atendimento médico ou acredita que a corrupção continua sem solução, esses temas acabam ocupando mais espaço do que debates sobre política monetária.

Isso ajuda a explicar por que indicadores econômicos nem sempre possuem uma relação direta com popularidade política ou intenção de voto.

A economia importa.

Mas ela raramente é percebida da mesma forma pelos economistas e pelos eleitores.

Juros altos doem. Mas não viram prioridade

Talvez o dado mais curioso da pesquisa seja o desempenho da taxa de juros.

Embora a Selic esteja entre os assuntos mais discutidos do país, apenas 2% dos entrevistados a apontaram como um dos principais problemas nacionais.

Isso não significa que os brasileiros não sintam os efeitos dos juros.

Muito pelo contrário.

Cartão de crédito, cheque especial, financiamentos e empréstimos continuam pesando no orçamento das famílias. Mas a percepção costuma recair sobre bancos, instituições financeiras ou sobre o custo do crédito em si, e não necessariamente sobre a política monetária do Banco Central.

É uma diferença importante.

O cidadão sente a dor.

Mas nem sempre identifica sua origem.

Segurança voltou ao centro do debate

O destaque para segurança pública também ajuda a entender os rumos da política brasileira.

Durante muitos anos, emprego, renda e inflação dominaram as prioridades do eleitorado. Agora, a percepção crescente de violência recoloca segurança entre os temas mais sensíveis da agenda nacional.

Para candidatos que disputarão as eleições de 2026, o recado é claro.

Promessas relacionadas apenas à economia podem não ser suficientes.

Questões ligadas à criminalidade, policiamento, sistema prisional e combate ao crime organizado tendem a ganhar espaço cada vez maior no debate público.

A inflação continua importante. Só não é o topo da lista

Isso não significa que o custo de vida deixou de preocupar.

Diversas pesquisas mostram que preços altos continuam afetando fortemente o orçamento das famílias brasileiras. Em levantamentos recentes, a maioria dos brasileiros afirma sentir perda de poder de compra e continua preocupada com alimentação, combustíveis e despesas básicas.

O que a pesquisa revela é outra coisa.

Quando forçados a priorizar problemas, os brasileiros colocam segurança, saúde e corrupção à frente da inflação.

É uma questão de ranking, não de irrelevância.

Por que isso importa

Porque eleições raramente são decididas pelos temas que dominam o mercado financeiro.

Enquanto investidores discutem juros, inflação e fiscal, a pesquisa sugere que os eleitores estão mais preocupados com violência, hospitais e corrupção.

Para políticos, isso funciona como um mapa.

Para investidores, funciona como um alerta.

Entender o que realmente preocupa a população ajuda a antecipar prioridades de governo, propostas de campanha e decisões que podem influenciar a economia nos próximos anos.

No fim das contas, o Brasil que move os mercados nem sempre é o mesmo Brasil que move as urnas.