Paris deve registrar temperaturas acima de 40°C nesta semana. Na Espanha, autoridades emitiram alertas vermelhos em diversas regiões. Na Itália, hospitais estão se preparando para um aumento nas internações relacionadas ao calor extremo. E, em boa parte da Europa, o verão começou com uma pergunta desconfortável:

Quanto custará conviver com um planeta mais quente?

A nova onda de calor que atinge o continente não está apenas quebrando recordes meteorológicos. Ela está recolocando no centro do debate uma questão econômica cada vez mais urgente: o mundo continua investindo o suficiente para mitigar as mudanças climáticas?

Os números sugerem uma resposta preocupante.

O custo da mudança climática já não é teórico

Durante muito tempo, os impactos econômicos do aquecimento global eram tratados como projeções distantes, normalmente associadas ao final do século.

Isso mudou.

Hoje, ondas de calor já afetam diretamente redes elétricas, sistemas de transporte, produtividade do trabalho, gastos com saúde e até a indústria do turismo. Quando temperaturas extremas atingem grandes centros urbanos, empresas enfrentam interrupções operacionais, governos precisam mobilizar recursos emergenciais e milhões de pessoas reduzem sua capacidade de trabalhar normalmente.

Economistas estimam que as mudanças climáticas podem custar trilhões de dólares à economia global nas próximas décadas. E a tendência é que os eventos extremos se tornem mais frequentes e mais intensos ao longo dos próximos anos.

A Europa, que está aquecendo mais rapidamente do que a média global, tornou-se uma espécie de laboratório desse futuro.

O dinheiro continua chegando. Mas não na velocidade necessária.

À primeira vista, os números parecem positivos.

Segundo a Climate Policy Initiative, investimentos públicos e privados em iniciativas climáticas alcançaram aproximadamente US$ 2,1 trilhões em 2024. O valor inclui projetos de energia renovável, infraestrutura urbana resiliente, construção sustentável e tecnologias de baixo carbono.

O problema é que esse crescimento não acompanha a velocidade da transformação necessária.

Em seu relatório mais recente, a organização resumiu a situação de forma direta: o financiamento climático está aumentando, mas não rápido o suficiente.

Na prática, isso significa que, embora mais recursos estejam sendo direcionados para combater o problema, a distância entre o que está sendo investido e o que seria necessário continua crescendo.

A inteligência artificial está competindo pelo mesmo capital

Existe outro fator ajudando a explicar essa desaceleração.

Os investidores encontraram uma nova obsessão.

Desde 2021, o financiamento de venture capital para startups de tecnologia climática vem caindo globalmente. Enquanto isso, bilhões de dólares migraram para empresas ligadas à inteligência artificial, infraestrutura computacional e data centers.

Não é difícil entender por quê.

A IA oferece uma combinação extremamente atraente para investidores: crescimento acelerado, ciclos de desenvolvimento mais curtos e potencial de retorno mais imediato.

Já projetos climáticos frequentemente exigem horizontes mais longos, enfrentam incertezas regulatórias e dependem de infraestrutura física complexa.

O resultado é que parte do capital que, alguns anos atrás, fluía para tecnologias de descarbonização agora está sendo redirecionado para a corrida da inteligência artificial.

Empresas e governos também estão recuando

A mudança não acontece apenas entre investidores.

Diversas empresas reduziram ou revisaram metas de neutralidade de carbono estabelecidas durante os últimos anos. Ao mesmo tempo, governos pressionados por déficits fiscais e desaceleração econômica passaram a rever programas de incentivo climático.

Nos Estados Unidos, por exemplo, parte das iniciativas climáticas lançadas durante a administração Biden perdeu força ou enfrenta incertezas políticas. Em outras regiões, subsídios foram reduzidos ou reestruturados.

Isso cria uma situação paradoxal.

Quanto mais evidentes se tornam os impactos das mudanças climáticas, mais difícil parece ser manter o ritmo dos investimentos necessários para combatê-las.

As famílias estão assumindo parte da conta

Diante desse cenário, um grupo vem ganhando importância crescente: os consumidores.

Segundo a Climate Policy Initiative, famílias e participantes privados do mercado responderam por aproximadamente US$ 332 bilhões em investimentos relacionados à mitigação climática em 2024, representando cerca de 60% dos gastos em algumas categorias de soluções de baixo carbono.

Painéis solares residenciais, veículos elétricos, eficiência energética e adaptações domésticas passaram a representar uma parcela cada vez maior do esforço climático global.

Em outras palavras, enquanto parte dos governos e investidores desacelera, consumidores estão assumindo uma fatia crescente da responsabilidade.

Por que isso importa

A onda de calor que atinge a Europa é um lembrete de que a mudança climática deixou de ser uma discussão sobre o futuro.

Ela já faz parte da economia atual.

O desafio é que os incentivos financeiros nem sempre acompanham essa realidade. Enquanto os impactos climáticos se tornam mais visíveis, parte do capital global está migrando para outras prioridades, especialmente inteligência artificial.

Isso cria uma tensão que deve definir a próxima década.

De um lado, os custos econômicos das mudanças climáticas continuam aumentando. Do outro, os investimentos necessários para reduzir esses custos enfrentam concorrência crescente por atenção, recursos e capital.

A questão não é mais se o mundo pode se dar ao luxo de investir em clima.

A questão é quanto custará não investir.