A bolsa do México tem passado por um período de turbulência. Depois de alcançar seu pico histórico em fevereiro, o principal índice de ações, o IPC, recuou e teve um desempenho inferior aos seus pares latino-americanos. As razões? Projeções mais fracas para o Produto Interno Bruto (PIB) e, principalmente, a incerteza em relação ao fluxo comercial com os Estados Unidos, um parceiro econômico crucial.

Para completar o cenário, o ciclo de queda de juros no México parece ter chegado ao fim. A taxa básica, a “tasa objetivo”, que é como a nossa Selic, caiu de 11% para 6,5% desde 2024. Apesar da inflação controlada, o banco central mexicano (Banxico) costuma seguir os movimentos do Federal Reserve (Fed) dos EUA, o que adiciona uma camada de cautela.

Onde o mercado está e para onde pode ir?

No curto prazo, a maioria dos analistas vê um potencial de alta limitado para o IPC, que hoje ronda os 66.500 pontos. O JP Morgan, por exemplo, projeta 68 mil pontos até o final do ano, enquanto o Citi estima 70 mil em dezembro e 73 mil em meados de 2027. Mas, para quem tem uma visão de longo prazo, Benjamin Souza, estrategista da BlackRock para a América Latina, aponta que o México é, atualmente, uma história mais micro do que macro, com muita dispersão setorial criando oportunidades.

Composição e Valuation

A bolsa mexicana tem uma estrutura setorial parecida com a brasileira, com forte presença de empresas de consumo, bancos, commodities e telecomunicações. Curiosamente, o setor de consumo é o maior, respondendo por 31% do índice, com gigantes como FEMSA, Walmex e Bimbo. Commodities vêm em seguida (27%), depois o setor financeiro (16%) e telecomunicações (10%), dominado pela América Móvil.

Atualmente, a bolsa mexicana negocia a um múltiplo de 12,6 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses. Isso representa um desconto de 8% em relação à média dos últimos dez anos, segundo o Citi (que excluiu os anos de 2013-2018 devido a múltiplos excepcionalmente altos). Para comparação, o Ibovespa negocia a 11,6x.

Por que isso importa

Mesmo com os desafios atuais, o mercado mexicano oferece resiliência nos lucros e uma composição setorial considerada defensiva, com cerca de 30% do índice em consumo básico e 10% em tecnologia, mídia e telecomunicações. Além disso, o retorno aos acionistas é atraente, com um shareholder yield médio entre 4% e 5%, impulsionado também por recompras de ações. Para investidores que buscam diversificação e oportunidades em mercados emergentes, o México pode apresentar um ponto de entrada interessante, especialmente para quem tem paciência.

Oportunidades Setoriais e Desafios Estruturais

Benjamin Souza, da BlackRock, destaca o setor de commodities como uma área promissora. O México é o maior produtor mundial de prata e um player relevante em cobre e ouro, metais com demanda crescente impulsionada pela energia solar, eletrificação e data centers. Empresas como Grupo Mexico e Industrias Peñoles se beneficiam desse cenário. O Grupo Mexico, por exemplo, já viu suas ações subirem 73% em 12 meses devido à alta do cobre.

No entanto, o país ainda enfrenta desafios estruturais. Empresas estatais cruciais, como a petrolífera Pemex e a de energia CFE, não são listadas em bolsa devido ao forte nacionalismo e à Constituição. O setor financeiro também tem lacunas: poucos mexicanos têm conta corrente, e o crédito representa apenas 25% do PIB, menos da metade do Brasil, o que explica o interesse de players como o Nubank. Adrian Huerta, do JP Morgan, vê um “amplo potencial” para o financial deepening no médio e longo prazo.

O papel dos Investidores e o Futuro

Investidores estrangeiros são importantes no mercado mexicano, mas os fundos de pensão locais (Afores) são os mais relevantes, detendo 12% do free float. Uma reforma recente aumentará as contribuições para esses fundos de 6,5% para 15% dos salários até 2030, o que pode elevar o AUM (ativos sob gestão) dos Afores de 25% para 56% do PIB até 2040. Resta saber se essa injeção de capital se traduzirá em maior participação em ações domésticas.

O BTG Pactual acredita que o México está bem posicionado para atrair investimentos adicionais devido ao nearshoring (empresas levando a produção para mais perto dos EUA), estabilidade política e políticas fiscal e monetária sólidas. Contudo, essa oportunidade levará tempo para se concretizar e enfrentará obstáculos como a oferta de energia, infraestrutura e o estado de direito. Para uma recuperação no curto prazo, Andres Cardona, do Citi, aponta a necessidade de notícias mais positivas sobre o acordo comercial USMCA (EUA, Canadá e México) e a inflação global.