Durante anos, Estados Unidos e Europa defenderam a ideia de reduzir sua dependência da China.

Na prática, porém, essa estratégia tem um preço muito maior do que se imaginava.

Um estudo da consultoria EY-Parthenon estima que reconstruir cadeias produtivas estratégicas fora da influência chinesa exigiria investimentos de US$ 23,6 trilhões ao longo dos próximos anos. O valor supera o PIB anual dos Estados Unidos e mostra o tamanho do desafio para países que buscam trazer de volta a produção de componentes considerados essenciais para segurança nacional e competitividade industrial.

O problema vai muito além das fábricas

Quando governos falam em reduzir a dependência da China, muita gente imagina apenas a construção de novas fábricas.

Mas a realidade é bem mais complexa.

Seria necessário desenvolver minas de minerais críticos, refinarias, plantas químicas, fábricas de baterias, semicondutores, redes logísticas, infraestrutura energética e mão de obra especializada. Em muitos desses setores, a China levou décadas para construir sua liderança e hoje domina etapas fundamentais da cadeia global de suprimentos.

Não basta trocar um fornecedor.

É preciso reconstruir praticamente todo um ecossistema industrial.

A geopolítica ficou mais cara

A pandemia, a guerra comercial entre Estados Unidos e China e as recentes restrições chinesas à exportação de minerais estratégicos mudaram a percepção dos governos ocidentais.

Eficiência deixou de ser o único critério.

Agora, segurança de abastecimento também pesa nas decisões econômicas.

Isso explica por que Estados Unidos, União Europeia e Japão vêm anunciando incentivos bilionários para atrair fábricas de chips, baterias e processamento de minerais críticos. O objetivo é reduzir vulnerabilidades caso novas tensões geopolíticas interrompam o comércio internacional.

A China continua vários passos à frente

O desafio é que a vantagem chinesa não está apenas no baixo custo da mão de obra.

Ela está na escala.

Hoje, o país concentra grande parte da capacidade mundial de refino de terras raras, processamento de minerais estratégicos e fabricação de componentes utilizados em carros elétricos, painéis solares e equipamentos de inteligência artificial. Mesmo quando a extração ocorre em outros países, muitas vezes o processamento final ainda depende da infraestrutura chinesa.

É justamente essa posição que o Ocidente tenta reduzir — ainda que isso implique custos muito maiores.

O debate deixou de ser econômico

Há poucos anos, a pergunta era: "Produzir na China é mais barato?"

Hoje, governos fazem outra pergunta: "Quanto custa depender da China?"

Essa mudança altera completamente a lógica da globalização.

Em vez de buscar apenas eficiência, empresas e governos passam a aceitar custos maiores para ganhar previsibilidade e reduzir riscos geopolíticos.

É uma transformação que deve influenciar investimentos industriais durante toda a próxima década.

Por que isso importa

A estimativa de US$ 23,6 trilhões mostra que o movimento de reindustrialização do Ocidente será muito mais caro — e muito mais demorado — do que muitos imaginavam.

Para empresas, isso significa novas oportunidades em setores como mineração, semicondutores, baterias e infraestrutura. Para governos, representa um difícil equilíbrio entre fortalecer a segurança econômica e evitar que essa transição torne produtos, energia e tecnologia mais caros.

No fim das contas, reduzir a dependência da China não será apenas uma decisão geopolítica.

Será também uma das escolhas econômicas mais caras da história recente.