Atenção, pessoal! A curva de juros nos Estados Unidos continua numa escalada assustadora, e isso já começa a fazer um estrago em setores importantes da economia. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos superaram 5,3%, um nível que não víamos desde 2002. Já os de 30 anos passaram de 5,6%, o maior patamar em 24 anos. É como se o custo do dinheiro estivesse subindo numa rampa íngreme, e isso tem consequências.
O Impacto nas Empresas
Com a venda massiva dos títulos do Tesouro, os chamados títulos high yield — aqueles de empresas com menor classificação de crédito — estão em queda livre, e as taxas de juros para essas companhias dispararam. Segundo o Financial Times, o custo de captação para as empresas de crédito mais arriscado subiu para 17%, o maior em seis anos. Isso significa que pegar dinheiro emprestado ficou muito mais caro para quem já não estava na melhor das situações.
Mas não pense que só as empresas de “segunda linha” estão sofrendo. Até as companhias com grau de investimento estão sentindo o aperto. O Bank of America, por exemplo, reduziu sua estimativa de emissão de títulos de grau de investimento de US$ 160 bilhões para US$ 110 bilhões só para este mês de outubro. Um caso notório foi o da Paramount Skydance, que teve que vender US$ 52 bilhões em dívida para financiar a aquisição da Warner Bros Discovery. A demanda por títulos de curto prazo (2 anos) foi quase o dobro da de longo prazo (30 anos), mostrando que os investidores estão cautelosos com o futuro e preferem não se amarrar em dívidas de longo prazo com juros em alta.
Ameaça de Crise de Crédito?
A Moody’s, uma das maiores agências de classificação de risco, estima que um recorde de US$ 1,45 trilhão em dívida corporativa de grau de investimento nos EUA vencerá entre 2026 e 2030. Com o mercado precificando pelo menos mais três altas de juros pelo Federal Reserve até 2028, há uma grande chance de o custo do dinheiro continuar a subir. Atsi Sheth, diretora de crédito da Moody’s, alertou: “Se os lucros das empresas não acompanharem essa alta, poderemos ver a materialização dos riscos de crédito.” Em outras palavras, muitas empresas podem ter dificuldades para pagar suas dívidas.
Mercado Imobiliário em Risco
Essa alta dos juros também está impactando o custo do financiamento imobiliário. Compradores de imóveis estão tentando renegociar contratos fechados no início do ano, segundo o Wall Street Journal. Nos EUA, o intervalo de 6 a 12 meses entre a assinatura e a conclusão da venda pode fazer uma diferença enorme nos custos de financiamento, especialmente quando as taxas sobem tão rápido. Isso ameaça a recuperação do mercado de imóveis comerciais, como shoppings e escritórios, que já foram bastante castigados durante a pandemia. Existem mais de US$ 5 trilhões em hipotecas comerciais que são altamente sensíveis às flutuações dos Treasuries.
Small Caps Sentem o Golpe
Para completar, os juros em alta já estão empurrando para baixo as ações das small caps, as empresas de menor capitalização. O índice Russell 2000, que as acompanha, acumula uma queda de 7% desde sua máxima em 14 de agosto. Enquanto isso, o S&P 500, que representa as grandes empresas, ficou praticamente estável no mesmo período e ainda acumula alta de 16% no ano, próximo de sua máxima histórica. Isso mostra uma divergência: as grandes empresas, geralmente mais resilientes, estão se segurando, mas as menores já sentem a pressão.
Por que isso importa
A escalada dos juros dos Treasuries americanos não é apenas um número distante. Ela é um sinal de alerta global que impacta diretamente o custo de vida e os negócios no Brasil e no mundo. Taxas de juros mais altas nos EUA tendem a atrair capital de volta para lá, enfraquecendo moedas de países emergentes como o real e encarecendo o crédito e os investimentos por aqui. Para empresas, isso significa empréstimos mais caros e menor capacidade de expansão. Para o consumidor, pode se traduzir em financiamentos mais caros e uma economia global mais lenta, afetando empregos e poder de compra. É um dominó que, se cair, pode gerar uma crise de crédito com consequências amplas e profundas.