A França está novamente no centro das atenções, e não é por um novo hit musical ou uma vitória no futebol. Mais de 400 escolas foram fechadas recentemente, não por feriado, mas por uma onda de protestos estudantis que se espalhou pelo país. O motivo? Instalações precárias, dias letivos exaustivos e, pasme, a falta de professores. O que começou em Seine-Saint-Denis, uma área de baixa renda, rapidamente ganhou força nacional, culminando em confrontos com a polícia e centenas de detenções. O cenário lembra 1968, mas o pano de fundo é bem diferente: uma crise fiscal profunda.
Por que isso importa
Isso importa porque a França, uma das maiores economias da Europa, está enfrentando um ajuste fiscal brutal de €54 bilhões para tentar controlar um déficit orçamentário que ultrapassou os limites da União Europeia. Os protestos estudantis são apenas a ponta do iceberg de uma insatisfação popular crescente com as medidas de austeridade, que incluem congelamento de salários de funcionários públicos e cortes em benefícios. A estabilidade política do presidente Emmanuel Macron está em jogo, e a forma como ele lida com essa crise pode ter repercussões para toda a Europa.
O ajuste fiscal e suas consequências
A França vem violando sistematicamente as regras fiscais da UE há anos, com um déficit de 5,1% do PIB e uma dívida pública de 119%. Para tentar reverter essa situação, o governo de Macron propôs um plano de austeridade severo. Este plano prevê o congelamento de salários de servidores, redução de benefícios fiscais e cortes em aposentadorias. Mesmo com um investimento significativo de €65,5 bilhões na educação, a insatisfação é palpável, e a pressão sobre os trabalhadores do setor público é imensa, com milhares indo às ruas para protestar.
A sombra de 1968
Embora os protestos estudantis na França sempre carreguem um peso simbólico, remetendo ao icônico Maio de 1968, a natureza da revolta atual é predominantemente econômica. Naquela época, a luta era por mais liberdade e contra o conservadorismo. Hoje, a indignação com escolas caindo aos pedaços, salas superlotadas e a falta de educadores se mistura com a preocupação com o futuro econômico do país e os impactos do plano de austeridade.
Impacto nos mercados e a visão do FMI
Não é só nas ruas que a crise se manifesta. O mercado financeiro também sente o impacto. Os títulos do Tesouro francês (OATs) estão com rendimentos elevados, próximos das máximas das últimas décadas, refletindo a incerteza sobre a capacidade do governo de equilibrar as contas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já alertou que a França precisa de uma estratégia fiscal clara e de longo prazo para evitar uma deterioração ainda maior e manter a confiança dos investidores. Sem isso, o país pode ter que pagar prêmios ainda maiores para financiar sua dívida.
Um cenário político fragmentado
A situação política de Macron é complicada. Sem maioria na Assembleia Nacional desde as eleições antecipadas de 2024, ele enfrenta um parlamento fragmentado e hostil. A aprovação do orçamento de 2027, peça-chave do ajuste fiscal, promete ser uma batalha árdua. Partidos de oposição, como o França Insubmissa (LFI) de Jean-Luc Mélenchon, são acusados de incitar os protestos, embora neguem envolvimento direto. A ascensão da extrema direita, liderada por Marine Le Pen, também adiciona uma camada de complexidade ao cenário político.
Perspectivas econômicas sombrias
As projeções econômicas não são animadoras. O PIB francês deve crescer apenas 0,6% em 2026, um ritmo lento demais para aliviar a pressão sobre as contas públicas. O desemprego também deve aumentar, atingindo 8,3% em 2026, com os jovens sendo os mais afetados – e, coincidentemente, os mais engajados nos protestos. A França parece estar em uma armadilha política e econômica: incapaz de cortar gastos sem provocar revolta social, e incapaz de manter gastos sem violar as regras europeias e perder credibilidade financeira.