Donald Trump resolveu abrir mais uma gaveta do seu estoque de tarifas e sobrou de novo para o Brasil. O Escritório de Comércio dos EUA (USTR) concluiu uma investigação sob a famosa Seção 301 e decretou: o Brasil não proíbe de forma explícita em sua legislação a importação de produtos feitos com trabalho forçado de terceiros países, o que geraria uma concorrência desleal com o trabalhador americano. Por conta dessa suposta brecha na nossa vidraça, Washington quer nos aplicar uma sobretaxa de 12,5%. O Itamaraty, claro, tentou argumentar mostrando a nossa celebrada "lista suja" do trabalho escravo e o volume de resgates internos. Mas a Casa Branca basicamente deu de ombros e disse que o mecanismo doméstico não impede que mercadorias duvidosas de fora entrem por aqui. Se serve de consolo para o ego nacional, ficamos no mesmo grupo de "castigo" que China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido. Pelo menos a recepção da salinha do recesso é chique.
Por que isso importa: A medida é um drible jurídico do governo Trump para tentar reerguer sua muralha de tarifas depois que a Suprema Corte americana derrubou seus impostos de emergência globais em fevereiro. O grande problema prático é o efeito cascata: essa sobretaxa de 12,5% corre em uma esteira separada daquele outro megatarifaço de 25% que os EUA já estavam costurando contra o Brasil por causa de desavenças envolvendo o Pix, decisões do STF e desmatamento. Se as duas canetadas se acumularem, exportar para o mercado americano vai virar uma missão quase impossível para muita empresa brasileira.
O presidente Lula bem que tentou amaciar o terreno em seu encontro com Trump na Casa Branca no mês passado, mas parece que a diplomacia do churrasco não tem tanta força diante da obsessão protecionista de Washington. A boa notícia de última hora — se é que dá para chamar assim — é que o USTR abriu uma colher de chá provisória e deixou de fora da cobrança setores estratégicos como aeronaves (alívio para a Embraer), carnes, café e minerais. O resto do PIB, porém, vai ter que esperar o período de consulta pública que vai até julho para saber se o imposto vira realidade ou se foi só mais um blefe de bilionário.
O recado de Washington é claro e sem meias palavras: no comércio internacional do século XXI, ou você joga rigorosamente pelas regras do xerife, ou descobre que o preço de exportar para a maior economia do mundo ficou mais caro do que comprar dólar em casa de câmbio de aeroporto.