A pressão das ruas já provocou uma reforma forçada no gabinete presidencial com a queda de três ministros, incluindo os titulares das pastas da Defesa (Marcelo Salinas) e da Educação, evidenciando o isolamento do poder executivo.

As origens do colapso econômico

Rodrigo Paz assumiu a presidência como o primeiro mandatário de direita do país após duas décadas de hegemonia da esquerda. Sua plataforma prometia uma guinada liberal ("capitalismo para todos") para sanar as contas públicas. No entanto, o ponto de partida já era dramático:

A "traição" política e a fratura social

Mais do que a matemática econômica, a crise é movida por uma forte sensação de traição eleitoral e por divisões históricas do país.

A quebra da base popular: Paz venceu as eleições surpreendendo ao conquistar votos em redutos tradicionais da esquerda e do ex-presidente Evo Morales. O grande fiador dessa ponte com as classes populares era seu vice-presidente, o ex-policial Edmand Lara Montaño. No entanto, uma vez eleito, o presidente se aliou fortemente às elites empresariais de Santa Cruz de La Sierra (centro financeiro da direita) e revogou o imposto sobre grandes fortunas. A ruptura política com o próprio vice selou o divórcio de Paz com o "mundo popular".

A ferida colonial e étnica entre a Bolívia indígena (representada pelos sindicatos, camponeses, mineiros e a Central Operária Boliviana - COB) e a elite branca do país voltou a sangrar de forma violenta.

O método radical e o custo humanitário

Os bloqueios de estradas são uma ferramenta clássica de protesto na história boliviana, mas a intensidade atual atingiu níveis sem precedentes, provocando uma grave crise humanitária interna:

Diante do caos, o governo tentou endurecer as medidas de segurança flexibilizando o uso das Forças Armadas por meio de decretos de exceção, mas a força do Estado não foi suficiente para desmobilizar as estradas. Sem uma rota de negociação clara ou disposição do presidente para renunciar, a Bolívia segue travada e sob o espectro de uma insurreição prolongada.