A pressão das ruas já provocou uma reforma forçada no gabinete presidencial com a queda de três ministros, incluindo os titulares das pastas da Defesa (Marcelo Salinas) e da Educação, evidenciando o isolamento do poder executivo.
As origens do colapso econômico
Rodrigo Paz assumiu a presidência como o primeiro mandatário de direita do país após duas décadas de hegemonia da esquerda. Sua plataforma prometia uma guinada liberal ("capitalismo para todos") para sanar as contas públicas. No entanto, o ponto de partida já era dramático:
- Crise cambial e energética: Escassez severa de dólares e desabastecimento agudo de combustíveis, agravado pela queda drástica nas exportações históricas de gás natural do país.
- Austeridade e inflação: O plano de cortar gastos incluiu a retirada de subsídios de combustíveis e a tentativa de implementar leis impopulares (como a polêmica Lei 1720), disparando a inflação e o custo de vida.
A "traição" política e a fratura social
Mais do que a matemática econômica, a crise é movida por uma forte sensação de traição eleitoral e por divisões históricas do país.
A quebra da base popular: Paz venceu as eleições surpreendendo ao conquistar votos em redutos tradicionais da esquerda e do ex-presidente Evo Morales. O grande fiador dessa ponte com as classes populares era seu vice-presidente, o ex-policial Edmand Lara Montaño. No entanto, uma vez eleito, o presidente se aliou fortemente às elites empresariais de Santa Cruz de La Sierra (centro financeiro da direita) e revogou o imposto sobre grandes fortunas. A ruptura política com o próprio vice selou o divórcio de Paz com o "mundo popular".
A ferida colonial e étnica entre a Bolívia indígena (representada pelos sindicatos, camponeses, mineiros e a Central Operária Boliviana - COB) e a elite branca do país voltou a sangrar de forma violenta.
O método radical e o custo humanitário
Os bloqueios de estradas são uma ferramenta clássica de protesto na história boliviana, mas a intensidade atual atingiu níveis sem precedentes, provocando uma grave crise humanitária interna:
- Desabastecimento extremo: Cidades inteiras enfrentam falta de alimentos e combustível. Hospitais entraram em estado de emergência por falta de insumos básicos e oxigênio (o que levou governos vizinhos, como o do Brasil, a enviarem ajuda humanitária e alimentos via Forças Armadas).
- Radicalismo e rejeição: Diferente de outros ciclos históricos, os bloqueios atuais sofrem forte rejeição de setores da opinião pública devido à intransigência nas estradas, que impediram a passagem até de ambulâncias. Autoridades relatam que pelo menos sete pessoas morreram devido à impossibilidade de receber atendimento médico.
Diante do caos, o governo tentou endurecer as medidas de segurança flexibilizando o uso das Forças Armadas por meio de decretos de exceção, mas a força do Estado não foi suficiente para desmobilizar as estradas. Sem uma rota de negociação clara ou disposição do presidente para renunciar, a Bolívia segue travada e sob o espectro de uma insurreição prolongada.