O jornalista de tecnologia Lucas Ropek viajou até o calor escaldante de Nevada para acompanhar de perto a primeira edição do Enhanced Games — apelidado carinhosamente pelos críticos de "Olimpíadas do Esteroide". Esqueça os exames de urina e o drama do comitê antidoping; ali, uma horda de 42 atletas passou semanas em um resort de luxo nos Emirados Árabes sob a supervisão de médicos que desenharam "coquetéis químicos" personalizados para cada um. O objetivo? Ver até onde o corpo humano chega quando está entupido de anabolizantes, testosterona, hormônio do crescimento e peptídeos.

Por que isso importa

Por trás dos bíceps que fariam o Hulk chorar de inveja, existe um modelo de negócios multibilionário respaldado pelos ricaços do Vale do Silício, incluindo o megainvestidor Peter Thiel. A organizadora do evento abriu capital na bolsa recentemente valendo 1,2 bilhão de dólares (mais de R$ 6 bilhões) e vende exatamente o que exibe na pista: tratamentos de longevidade, reposição hormonal e remédios para emagrecer. O evento esportivo é, na verdade, um gigantesco comercial de TV para normalizar o uso de agulhadas estéticas no cidadão comum, surfando em uma onda cultural (o chamado looksmaxxing) que já dominou o TikTok e os podcasts de maromba pelo mundo.

WWE encontra o Laboratório de Dexter

O clima no estádio de 50 milhões de dólares construído em tempo recorde parecia menos com o espírito olímpico de Atenas e mais com uma mistura bizarra de Casos de Família, WWE e Gladiador. Influenciadores lotavam as arquibancadas enquanto o CEO da empresa, Maximilian Martin — um jovem engravatado com sorriso de vendedor de carro —, corria para a beira da piscina para abraçar nadadores encharcados.

Para melhorar o suco de entretenimento, figuras carimbadas da internet deram as caras. Bryan Johnson, aquele bilionário excêntrico que gasta fortunas para tentar voltar a ter 18 anos, atacou de comentarista usando uma roupa que o repórter descreveu como o "Ursinho da Sukita". Na pista, astros como Hafthor Bjornsson, o "Montanha" de Game of Thrones, tentaram quebrar recordes mundiais de levantamento de peso e falharam miseravelmente, provando que nem toda a química do mundo substitui a física.

Nem tudo que reluz é testosterona

A grande ironia da noite foi o nadador americano Hunter Armstrong. Ele se recusou categoricamente a tomar qualquer substância porque ainda sonha com as Olimpíadas de verdade e não queria sujar o currículo. O rapaz foi lá, competiu de cara limpa, "puro", e... ganhou a prova dos 50 metros costas contra os rivais turbinados. O doping institucionalizado tomou um calor do whey protein com banana.

Ainda assim, os organizadores conseguiram o milagre que precisavam para as manchetes no último minuto: o grego Kristian Gkolomeev, um gigante de dois metros de altura, quebrou o recorde mundial dos 50 metros livres por míseros 0,07 segundos, fazendo a arena inteira explodir em luzes vermelhas dignas de um cassino.

Enquanto a Agência Mundial Antidoping chama o evento de "show de palhaços perigoso", os fundadores dão de ombros. Questionado sobre a ética de criar mutantes comerciais, o cofundador Christian Angermayer foi cirúrgico: "Sou um capitalista. Não há razão para que algo bom não seja também um negócio".

Escolher Las Vegas como sede diz tudo o que você precisa saber sobre o projeto. Não se trata de saúde a longo prazo ou de ciência revolucionária, mas sim de vaidade, espetáculo e de apostar o futuro em troca de alguns segundos de glória no espelho. Se o resto da humanidade vai começar a se injetar para ir à padaria, aí já é outra história. Mas que o show vendeu o peixe, vendeu.