Durante décadas, o sistema financeiro global operou com uma regra tácita: quase tudo passava pelo dólar.

O comércio internacional, as reservas dos bancos centrais, os fluxos de investimento e boa parte das transações globais dependiam, direta ou indiretamente, da moeda americana. Essa posição deu aos Estados Unidos uma influência econômica sem paralelo e transformou o dólar na principal infraestrutura financeira do planeta.

A China nunca escondeu seu desconforto com essa realidade.

Nos últimos quinze anos, Pequim vem construindo silenciosamente uma série de mecanismos para ampliar o uso internacional do yuan, reduzir sua dependência do sistema financeiro americano e criar alternativas às estruturas dominadas pelo Ocidente. O avanço tem sido gradual, mas os anúncios feitos nesta semana mostram que o país está acelerando seus esforços justamente em um momento em que as tensões geopolíticas e comerciais continuam elevadas.

Mais do que uma disputa monetária, trata-se de uma estratégia de longo prazo para aumentar a influência econômica da China e reduzir sua vulnerabilidade a choques externos.

Pequim quer tornar o yuan mais fácil de usar

Uma das maiores barreiras para a internacionalização de qualquer moeda é a liquidez. Empresas, bancos centrais e investidores só utilizam uma moeda em larga escala quando têm confiança de que conseguirão acessá-la rapidamente em momentos de necessidade.

Foi justamente nessa frente que o Banco Popular da China concentrou seus novos anúncios.

Durante o Fórum de Lujiazui, em Xangai, o presidente da autoridade monetária chinesa, Pan Gongsheng, apresentou um conjunto de ferramentas destinadas a facilitar o acesso internacional ao yuan. Entre elas está um novo mecanismo que permite que bancos centrais estrangeiros, fundos soberanos e outras instituições obtenham liquidez em yuan utilizando títulos chineses de alta qualidade como garantia.

Na prática, a medida funciona como uma espécie de rede de segurança financeira. Quanto mais fácil for acessar yuan em momentos de estresse de mercado, maior tende a ser a disposição de investidores e governos para utilizar a moeda em transações internacionais.

É um passo técnico, mas extremamente relevante.

Xangai quer se tornar um centro financeiro global do yuan

Outra frente importante envolve a criação de uma infraestrutura financeira mais robusta fora do mercado doméstico chinês.

O governo anunciou um programa piloto para operações cambiais offshore em yuan dentro da Zona de Livre Comércio de Xangai. A iniciativa busca transformar a cidade em um dos principais centros globais para negociação, gestão de risco e alocação de ativos denominados na moeda chinesa.

O movimento segue uma lógica semelhante àquela que consolidou cidades como Londres e Nova York como centros financeiros internacionais. Não basta que uma moeda seja utilizada no comércio. Ela também precisa contar com mercados profundos, instrumentos financeiros sofisticados e mecanismos eficientes para hedge e gestão de risco.

Ao fortalecer essa infraestrutura, Pequim tenta criar um ambiente em que investidores globais possam utilizar o yuan com a mesma facilidade com que hoje utilizam dólares, euros ou ienes.

O yuan digital também faz parte da estratégia

A ofensiva chinesa não se limita ao sistema financeiro tradicional.

Nos últimos anos, o país investiu pesadamente no desenvolvimento do yuan digital, uma moeda emitida pelo banco central que pode ser utilizada em pagamentos domésticos e internacionais. Nesta semana, a estratégia ganhou mais um capítulo com a adesão de 26 instituições financeiras a uma plataforma voltada para pagamentos transfronteiriços utilizando a moeda digital chinesa.

O objetivo é tornar transferências internacionais mais rápidas, baratas e menos dependentes das redes tradicionais dominadas pelo Ocidente. Em paralelo, a China continua desenvolvendo o mBridge, uma plataforma internacional de moedas digitais criada em parceria com bancos centrais de Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. O sistema busca permitir liquidações internacionais diretas entre moedas digitais de bancos centrais, reduzindo a necessidade de utilizar o dólar como moeda intermediária.

Embora ainda esteja em fase inicial, o projeto é visto por muitos analistas como uma das iniciativas mais ambiciosas já lançadas para remodelar a infraestrutura global de pagamentos.

A guerra comercial tornou tudo mais urgente

Os novos anúncios não aconteceram por acaso.

Nos últimos anos, autoridades chinesas passaram a enxergar a dependência do dólar não apenas como uma questão econômica, mas também como uma vulnerabilidade estratégica. As sanções financeiras aplicadas pelos Estados Unidos contra países como Rússia, Irã e Venezuela mostraram como o controle sobre a infraestrutura financeira global pode ser utilizado como ferramenta geopolítica.

Para Pequim, ampliar o uso internacional do yuan significa reduzir essa dependência e criar alternativas caso as relações entre China e Estados Unidos se deteriorem ainda mais no futuro. Reguladores chineses têm defendido repetidamente a necessidade de construir um sistema monetário mais multipolar, no qual diferentes moedas possam coexistir sem depender exclusivamente do dólar.

Essa visão ganhou força especialmente após os conflitos comerciais dos últimos anos e a crescente rivalidade tecnológica entre as duas maiores economias do mundo.

O dólar continua dominante, mas os sinais estão mudando

Isso não significa que o yuan esteja prestes a substituir o dólar.

A moeda americana continua respondendo pela maior parte das reservas internacionais, das transações globais e dos mercados financeiros mundiais. Além disso, a China ainda mantém controles de capital que limitam a livre circulação de recursos, um fator que reduz a atratividade do yuan para muitos investidores internacionais.

Mas alguns indicadores mostram avanços graduais.

O uso do renminbi no financiamento do comércio internacional continua crescendo, impulsionado por iniciativas como o sistema CIPS, acordos bilaterais de swap cambial e o avanço das plataformas digitais chinesas. Em determinadas métricas ligadas ao comércio, a moeda já vem ganhando participação de forma consistente ao longo da última década.

O que a China parece buscar não é necessariamente substituir o dólar no curto prazo, mas construir uma alternativa viável para uma parcela cada vez maior das transações globais.

Por que isso importa

Os anúncios desta semana mostram que a internacionalização do yuan entrou em uma nova fase. Em vez de depender apenas de acordos comerciais ou incentivos políticos, a China está investindo na construção de uma infraestrutura financeira completa, capaz de oferecer liquidez, pagamentos internacionais, mercados financeiros e instrumentos digitais próprios.

O impacto dessa estratégia provavelmente será gradual. O dólar continua ocupando uma posição dominante e dificilmente perderá esse status em um horizonte próximo. Mas a direção do movimento é clara: Pequim quer garantir que empresas, investidores e governos tenham mais opções além da moeda americana.

A disputa entre dólar e yuan não será decidida em um único anúncio nem em um único ano. Ela será definida pela capacidade da China de convencer o resto do mundo de que sua moeda pode ser tão confiável, líquida e útil quanto a americana. Os anúncios desta semana mostram que essa construção continua avançando, peça por peça.