Há alguns meses, economistas tinham certeza de uma coisa. Com a guerra no Oriente Médio e as interrupções no Estreito de Hormuz, rota por onde normalmente passa cerca de 20% do petróleo mundial, os preços da energia disparariam e arrastariam a economia global para uma nova crise.
Isso não aconteceu.
O petróleo subiu, mas ficou muito abaixo dos cenários mais pessimistas. E uma das principais razões atende pelo nome de China.
A maior importadora de petróleo do mundo simplesmente reduziu suas compras em milhões de barris por dia.
Sem querer, Pequim acabou se tornando uma espécie de amortecedor da economia global.
O mistério dos "3 milhões de barris desaparecidos"
Analistas tentavam entender por que o mercado de petróleo estava tão resiliente apesar da crise geopolítica.
A resposta começou a aparecer nos números de importação chineses.
O país está comprando cerca de 3 milhões de barris por dia a menos do que normalmente compraria. Em maio, as importações caíram para níveis que não eram vistos há quase uma década.
Para colocar em perspectiva:
Esse volume equivale aproximadamente ao consumo combinado de países como Itália e França.
Em outras palavras, uma enorme parcela da demanda global simplesmente desapareceu.
O que está acontecendo na China?
Não existe uma única explicação.
Há vários fatores atuando ao mesmo tempo.
Os chineses estão usando mais veículos elétricos, viajando mais de trem e menos de avião, reduzindo a atividade de refinarias e consumindo estoques acumulados anteriormente, quando petróleo russo e iraniano estava mais barato.
Além disso, Pequim vem executando há anos uma estratégia para reduzir sua dependência energética externa, investindo pesadamente em eletrificação do transporte e expansão da indústria de veículos elétricos.
O resultado é que o país está conseguindo crescer utilizando relativamente menos petróleo do que no passado.
Por que isso está ajudando o resto do mundo?
Porque petróleo é um mercado global.
Quando o maior comprador do planeta reduz sua demanda, sobra mais oferta para os demais países.
Essa folga ajudou refinarias e importadores em toda a Ásia a encontrar combustível mesmo com os problemas de abastecimento no Oriente Médio.
Também ajudou a conter uma escalada ainda maior dos preços.
E isso importa muito.
Petróleo mais caro costuma significar:
- Combustível mais caro
- Transporte mais caro
- Alimentos mais caros
- Inflação mais alta
Ao reduzir a pressão sobre os preços da energia, a China está contribuindo para evitar um choque inflacionário global.
Mas existe um problema
Essa situação pode não durar para sempre.
Parte da redução das importações aconteceu porque a China está utilizando estoques acumulados ao longo dos últimos anos.
Se esses estoques diminuírem ou a demanda doméstica acelerar, Pequim pode voltar ao mercado internacional.
E aí a dinâmica muda rapidamente.
Analistas alertam que uma retomada significativa das compras chinesas poderia pressionar os preços globais justamente em um momento em que a oferta continua vulnerável.
Por enquanto, o mercado está respirando.
Mas ninguém sabe por quanto tempo.
Uma mudança estrutural?
A pergunta mais interessante talvez seja outra.
E se a China simplesmente precisar de menos petróleo daqui para frente?
A expansão dos veículos elétricos, das energias renováveis e da eletrificação da economia pode estar criando uma mudança estrutural na demanda chinesa por combustíveis fósseis.
Se isso se confirmar, o impacto será gigantesco.
Afinal, poucas forças influenciam mais o mercado global de commodities do que o apetite da China.
Por que isso importa
Porque a história mostra como a economia mundial está mais conectada do que parece.
Uma decisão de consumidores chineses de trocar carros a gasolina por veículos elétricos pode influenciar o preço do combustível em postos brasileiros.
Uma redução nas importações de petróleo em Pequim pode ajudar a evitar uma recessão em outras partes do planeta.
Hoje, a principal força segurando os preços globais da energia não é um novo campo petrolífero nem um acordo diplomático.
É o fato de que a China está comprando muito menos petróleo do que o mundo esperava.
