O clima nas ruas de Bogotá e Medellín lembra muito o clássico meme do cachorro sentado numa sala em chamas dizendo "isso está ótimo". De um lado, a esquerda tenta defender um legado de reformas sociais que empacaram na burocracia e no teto fiscal; do outro, a direita resgata o discurso da segurança máxima, prometendo colocar ordem na casa nem que seja na base da força. Enquanto os políticos trocam acusações de corrupção nos debates da TV, cartéis dissidentes e grupos paramilitares mostram quem manda de verdade em várias províncias do interior, transformando a campanha eleitoral em um esporte de altíssimo risco.

A grande ironia é que a Colômbia parece presa em um roteiro digno de Cem Anos de Solidão, onde os ciclos de violência e política se repetem indefinidamente, só mudando as roupas dos personagens. O eleitor médio não está muito preocupado com as complexas teorias macroeconômicas dos candidatos; ele só quer conseguir pegar um ônibus para o trabalho sem o risco de ficar no meio de um fogo cruzado.

Por que isso importa: A estabilidade da Colômbia é a bússola geopolítica e econômica da região andina — e o que acontece lá reverbera diretamente no tabuleiro sul-americano, inclusive para o Brasil. Com o acordo de paz de 2016 com as FARC parecendo uma utopia distante no retrovisor e o narcotráfico batendo recordes de produção, o país virou um laboratório sob pressão. Se o eleitorado chutar o balde rumo a um radicalismo (seja de direita ou de esquerda), os mercados vizinhos vão sentir o solavanco e o fluxo migratório pode virar um pesadelo continental.

Sim, mas... É fascinante observar como a receita do bolo eleitoral latino-americano não muda: pegue uma crise econômica, adicione problemas crônicos de segurança pública, jogue teorias da conspiração nas redes sociais e sirva em um prato de polarização extrema. O candidato que promete resolver tudo em trinta dias costuma ser o mais aplaudido. Convenhamos: nós, brasileiros, assistimos a esse mesmo filme com regularidade de Copa do Mundo, então o sentimento de déjà vu é inevitável.

No final das contas, quem assumir a Casa de Nariño vai descobrir que governar a Colômbia hoje é como tentar pilotar um avião enquanto reconstrói as asas no meio de uma tempestade. Os candidatos prometem o céu, mas o vencedor vai herdar um país que mal consegue pacificar a própria terra.

Que os deuses da apuração ajudem os nossos vizinhos, porque governar com promessa de campanha é fácil, o difícil é combinar o resultado com os donos do fuzil.