Há poucos meses, a discussão nos mercados americanos girava em torno de quando o Federal Reserve começaria a cortar juros.

Agora, a conversa mudou completamente.

Investidores passaram a considerar um cenário que parecia improvável no início do ano: novas altas de juros nos Estados Unidos. A mudança de humor ganhou força às vésperas da divulgação do índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), o indicador de inflação preferido do Fed e uma das métricas mais observadas por economistas, gestores e formuladores de política monetária. Se os números vierem acima do esperado, a pressão para um aperto monetário adicional pode aumentar significativamente. ([The New York Times DealBook])

O temor já está aparecendo nos mercados. O S&P 500 acumula semanas de volatilidade, enquanto os rendimentos dos títulos do Tesouro americano voltaram a subir. O yield da Treasury de 10 anos, referência para financiamentos imobiliários, empréstimos corporativos e avaliação de ativos ao redor do mundo, chegou a 4,48%.

Em Wall Street, o debate já não é mais sobre quando os juros vão cair.

É sobre se eles podem subir novamente.

A inflação está se mostrando mais resistente do que o esperado

Grande parte da mudança de percepção vem da própria dinâmica dos preços.

Economistas esperam que a leitura do PCE mostre a inflação americana próxima do nível mais alto dos últimos três anos. Embora parte da pressão tenha sido causada pela disparada temporária do petróleo durante a guerra entre Israel e Irã, outros componentes da inflação continuam demonstrando resistência.

Isso preocupa o Fed.

A autoridade monetária passou os últimos anos tentando controlar os preços sem provocar uma recessão profunda. Depois de avanços importantes em 2024 e no início de 2025, muitos acreditavam que a batalha estava praticamente vencida.

Os dados mais recentes colocaram essa tese em dúvida.

Os bancos estão mudando suas apostas

A mudança de percepção não está restrita aos traders.

Algumas das maiores instituições financeiras do mundo começaram a revisar suas projeções para a política monetária americana.

Economistas do Bank of America, BNP Paribas e Deutsche Bank passaram a defender a possibilidade de novas altas de juros ainda em 2026. O cenário mais agressivo veio do Bank of America, que prevê até três elevações adicionais, começando já em setembro.

A justificativa é direta.

Segundo os analistas do banco, o problema inflacionário dos Estados Unidos piorou de forma inequívoca nos últimos meses, reduzindo o espaço para que o Fed permaneça inativo.

Nem todos concordam.

O UBS, por exemplo, argumenta que o mercado está exagerando e considera agressivas as apostas atuais em novos aumentos de juros. Ainda assim, o simples fato de essa discussão existir já representa uma mudança importante em relação ao consenso predominante no início do ano.

A política pode entrar na equação

A situação fica ainda mais delicada porque os possíveis aumentos de juros coincidem com um período politicamente sensível.

Donald Trump vem pressionando publicamente o Federal Reserve há meses para reduzir as taxas de juros. O presidente argumenta que custos de financiamento mais baixos ajudariam a impulsionar o crescimento econômico e aliviar o peso das dívidas para famílias e empresas.

Uma alta de juros antes das eleições legislativas de meio de mandato seria interpretada pela Casa Branca como um duro golpe político.

Historicamente, o Fed tenta evitar qualquer aparência de interferência eleitoral. Mas sua missão oficial continua sendo controlar a inflação, independentemente das consequências políticas.

Essa tensão entre política e política monetária promete ganhar força caso os dados econômicos continuem surpreendendo negativamente.

O mercado de títulos está enviando um alerta

Existe um motivo pelo qual investidores estão acompanhando os títulos do governo americano com tanta atenção.

O mercado de bonds costuma ser um dos primeiros a reagir quando cresce a percepção de que a inflação ficará elevada por mais tempo.

Foi exatamente isso que aconteceu nas últimas semanas.

Primeiro, investidores passaram a temer os impactos inflacionários do conflito no Oriente Médio. Depois, mesmo com o recuo recente do petróleo, os rendimentos dos títulos continuaram elevados, sinalizando que o mercado acredita que o problema pode ser mais estrutural do que temporário.

Quando os juros de longo prazo sobem, o impacto vai muito além de Wall Street.

Hipotecas ficam mais caras.

Crédito corporativo encarece.

Investimentos desaceleram.

E o custo de financiamento da própria dívida pública aumenta.

Por que isso importa

Os mercados passaram boa parte dos últimos dois anos apostando em uma trajetória relativamente previsível: inflação em queda, cortes graduais de juros e crescimento econômico moderado.

O retorno das discussões sobre altas de juros mostra que essa narrativa pode estar mudando.

Se a inflação continuar resistente, o Federal Reserve poderá ser forçado a escolher entre apoiar o crescimento econômico ou reafirmar sua credibilidade no combate aos preços. Nenhuma das opções será politicamente confortável.

Por enquanto, tudo depende dos próximos dados.

Mas uma coisa já está clara: a pergunta mais importante de Wall Street deixou de ser "quando virão os cortes?" e passou a ser "e se eles nunca vierem?".