Depois de alguns anos em que os megabônus corporativos pareciam perder força, os pacotes bilionários para executivos estão de volta.
Segundo levantamento anual do Wall Street Journal, 2025 marcou o retorno dos chamados "moonshot packages", remunerações gigantescas baseadas em ações e metas de longo prazo. Quase uma dúzia de CEOs recebeu mais de US$ 200 milhões em compensação no ano passado, o maior número desde 2021. Enquanto isso, o salário mediano dos CEOs das empresas do S&P 500 atingiu um recorde histórico de quase US$ 18 milhões.
O movimento acontece em um momento em que os mercados acionários continuam próximos de máximas históricas e investidores recompensam empresas que conseguiram se posicionar como protagonistas da revolução da inteligência artificial.
Elon Musk continua em uma categoria própria
Nenhum nome simboliza melhor essa tendência do que Elon Musk.
Seu pacote de remuneração na Tesla foi avaliado em impressionantes US$ 158 bilhões, valor que sozinho supera em muitas vezes a soma dos salários de centenas de CEOs analisados pelo estudo. Dependendo da evolução das ações da Tesla e do cumprimento das metas estabelecidas, o montante pode crescer ainda mais nos próximos anos.
Mas Musk é uma exceção até mesmo dentro do universo dos superexecutivos.
A história mais interessante talvez seja o que está acontecendo logo abaixo dele.
Os pacotes de nove dígitos voltaram à moda
O segundo maior pacote do ranking foi destinado a Shankh Mitra, CEO da Welltower, que recebeu aproximadamente US$ 821 milhões em ações e incentivos de longo prazo. Outros executivos fora do grupo tradicional das Big Techs também apareceram no topo da lista, incluindo Dylan Field, da Figma, e Kaz Nejatian, da Opendoor, ambos beneficiados por programas agressivos de remuneração baseada em ações.
O padrão se repete: boa parte desses pagamentos não acontece em dinheiro.
São apostas de longo prazo feitas pelos conselhos de administração. Se as empresas atingirem metas ambiciosas de crescimento, os executivos podem ganhar fortunas. Se não entregarem os resultados esperados, grande parte da remuneração simplesmente desaparece.
Na teoria, é uma forma de alinhar interesses entre executivos e acionistas.
Na prática, cria incentivos para buscar crescimento cada vez mais agressivo.
A inteligência artificial está inflando os salários
Existe um fator comum entre várias das empresas que lideram esses rankings.
IA.
Companhias ligadas à inteligência artificial, semicondutores, software corporativo e infraestrutura tecnológica viram suas ações dispararem nos últimos anos. Como a maior parte da remuneração dos CEOs é composta por ações e opções, a valorização dos papéis acaba elevando drasticamente os pacotes de compensação.
O caso da Broadcom ilustra bem esse fenômeno. O CEO Hock Tan recebeu um pacote superior a US$ 200 milhões, impulsionado pelo desempenho da companhia, que se tornou uma das maiores beneficiárias do boom da inteligência artificial graças à demanda por chips e infraestrutura de data centers.
Em outras palavras, parte da riqueza gerada pela corrida da IA está sendo capturada diretamente pelos executivos que lideram essas empresas.
O contraste com os trabalhadores continua crescendo
Enquanto os salários dos CEOs atingem novos recordes, os ganhos dos trabalhadores avançam em ritmo muito mais lento.
Dados da Associated Press mostram que a remuneração mediana dos CEOs do S&P 500 cresceu quase 6% em 2025, chegando a US$ 17,7 milhões. Já os funcionários medianos dessas empresas receberam, em média, cerca de US$ 89 mil por ano. Isso significa que o CEO típico ganhou aproximadamente 200 vezes mais do que um trabalhador médio da própria companhia.
Em alguns casos, a diferença é ainda maior.
Essa disparidade voltou a alimentar discussões sobre governança corporativa, distribuição de riqueza e o papel dos conselhos de administração na definição dos incentivos dos executivos.
Por que isso importa
Os salários dos CEOs sempre foram um termômetro de onde o mercado acredita que está o crescimento.
Nos anos 1990, a internet impulsionou pacotes bilionários. Na década passada, a nuvem e as plataformas digitais produziram uma nova geração de executivos superremunerados.
Agora, a inteligência artificial parece estar inaugurando mais um ciclo.
A diferença é que o tamanho dos incentivos está crescendo junto com as expectativas. Conselhos estão apostando centenas de milhões — e, em alguns casos, bilhões de dólares — em poucos executivos para liderar a transformação tecnológica das maiores empresas do mundo.
Se essas apostas vão gerar valor proporcional para acionistas, funcionários e sociedade é uma discussão em aberto.
Mas uma coisa já está clara: na economia da IA, os salários dos CEOs estão crescendo quase tão rápido quanto as avaliações das empresas que eles comandam.
