A fraude contábil da Americanas parecia caminhar para um capítulo final.
A companhia já havia avançado em sua recuperação judicial, reorganizado sua estrutura financeira e tentava reconstruir a confiança de investidores e credores. Mas a investigação criminal segue um ritmo próprio e acaba de entrar em uma nova fase.
Nesta quinta-feira, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagraram a segunda fase da Operação Disclosure, ampliando o foco das apurações para além dos antigos executivos da varejista. Pela primeira vez, a investigação alcançou integrantes do antigo grupo de controle da empresa e outros agentes que, segundo as autoridades, podem ter tido participação ou conhecimento da fraude contábil que abalou o mercado brasileiro em 2023.
A operação representa uma mudança importante na condução do caso. Até aqui, as investigações estavam concentradas principalmente na atuação da antiga diretoria. Agora, a pergunta passa a ser outra: quem mais sabia do esquema?
A investigação sobe um degrau
Além dos mandados de busca e apreensão, a Justiça determinou o bloqueio de bens que pode chegar a R$ 54 bilhões, valor estimado pelas autoridades como o prejuízo causado pela fraude. Entre os alvos estão empresários ligados ao antigo bloco de controle da Americanas, ex-conselheiros e executivos de instituições financeiras que mantinham relacionamento com a companhia durante o período investigado.
Segundo a Polícia Federal, o objetivo desta fase é esclarecer se havia conhecimento, participação ou omissão de pessoas que ocupavam posições estratégicas na estrutura de governança da empresa enquanto os balanços eram manipulados.
Essa é uma diferença relevante.
Em grandes fraudes corporativas, a responsabilização costuma começar na administração executiva. Quando as investigações alcançam acionistas de referência e membros do conselho, o debate passa a envolver também os mecanismos de supervisão e governança.
O caso continua sendo um divisor de águas
Quando a Americanas revelou inconsistências bilionárias em seus balanços, no início de 2023, o episódio rapidamente se transformou na maior crise corporativa da história recente do mercado de capitais brasileiro.
A descoberta levou à recuperação judicial da companhia, provocou perdas bilionárias para bancos, investidores e fornecedores e desencadeou uma série de investigações conduzidas pela CVM, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal.
Desde então, diversos ex-executivos foram denunciados por crimes como manipulação de mercado, organização criminosa, uso de informação privilegiada e falsidade documental. A nova fase da Operação Disclosure amplia esse escopo e busca esclarecer até onde a responsabilidade pelos fatos pode chegar.
A empresa tenta seguir em frente
Enquanto as investigações avançam, a Americanas vive uma realidade bastante diferente da enfrentada há três anos.
A varejista conseguiu implementar seu plano de recuperação judicial, recebeu aportes dos acionistas de referência, renegociou dívidas e vem tentando reconstruir sua operação. A companhia afirmou novamente que continua colaborando com as autoridades e que tem interesse no esclarecimento completo dos fatos.
Isso mostra como processos corporativos e criminais seguem caminhos independentes.
Mesmo que uma empresa consiga reorganizar suas finanças e retomar suas atividades, a responsabilização individual de pessoas eventualmente envolvidas pode levar muitos anos.
O impacto vai além da Americanas
Casos dessa dimensão costumam produzir mudanças permanentes no mercado.
Após o escândalo, investidores passaram a exigir padrões mais elevados de transparência, bancos reforçaram processos de análise de crédito e conselhos de administração passaram a discutir com mais intensidade mecanismos de controle interno e gestão de riscos.
A evolução das investigações também é acompanhada de perto porque pode estabelecer precedentes importantes sobre a responsabilização de controladores e membros de conselhos em casos de fraude contábil.
Por que isso importa
A nova fase da Operação Disclosure mostra que o caso Americanas ainda está longe de terminar.
O foco da investigação deixou de estar apenas na execução da fraude e passou a examinar quem ocupava posições de comando quando ela ocorreu. Isso pode ampliar significativamente o alcance das responsabilidades discutidas pelas autoridades.
Para o mercado, o episódio reforça uma lição que continua atual.
Governança corporativa não é apenas uma exigência regulatória. É um dos principais ativos de confiança de uma empresa.
E, quando ela falha, os efeitos podem se estender muito além dos balanços financeiros.
