A promulgação da PEC que elimina a jornada de trabalho 6x1 está gerando um verdadeiro tabuleiro de xadrez estratégico para os CEOs brasileiros. Com a necessidade de se adaptar à redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuir salários, as empresas correm contra o tempo para reajustar suas operações.

Este movimento não é trivial. Ele exige a revisão de escalas, o dimensionamento de equipes, a contratação de novos colaboradores em alguns casos e a busca incessante por ganhos de produtividade. Tudo isso para compensar o aumento esperado nos custos trabalhistas.

Por que isso importa?

Essa mudança afeta diretamente milhões de trabalhadores e a economia como um todo. Setores como varejo, saúde e transporte serão os mais impactados, pois já operam com jornadas próximas ou acima do novo limite. O desafio é manter a competitividade e a qualidade dos serviços enquanto se adapta a uma nova realidade legal. Para o consumidor, isso pode significar desde a mudança nos horários de funcionamento de estabelecimentos até o uso mais frequente de tecnologias de autoatendimento.

O dilema das farmácias e do varejo

Empresas como a Pague Menos, com suas 1.700 lojas e 28 mil funcionários, estão testando novas jornadas para se adequar. O CEO Jonas Marques destaca a necessidade de ter quatro farmacêuticos por dia em cada drogaria, o que pode levar à contratação de mais pessoas ou até mesmo à redução do número de farmácias 24 horas. Ele admite que isso pode mudar os hábitos de compra da população.

O setor de saúde, em geral, prevê uma alta acumulada de 10% nos custos trabalhistas após a implementação total da jornada de 40 horas, segundo o Banco Safra. Redes de farmácias e o varejo alimentar estão investindo em tecnologia, testando modelos de escala como 4x3 ou 12x36, e até considerando reduzir o tempo de funcionamento de algumas unidades.

Giraffas e o impacto na folha de pagamento

Carlos Guerra, fundador do Giraffas, estima que a nova legislação pode elevar em 12% o custo da folha de pagamento para o modelo 5x2, resultando em um impacto de 2% a 2,5% no faturamento. A rede de fast-food está explorando a jornada 12x36 como alternativa, que geraria um aumento menor na folha (5%), mas exigiria um novo acordo coletivo. Além disso, a empresa está investindo em tecnologias como aplicativos de autoatendimento para reduzir a dependência do atendimento humano.

O desafio da logística e serviços

Grandes varejistas de moda, que pediram anonimato, revelaram que o maior impacto será nos centros de distribuição. A produtividade nessas operações já é alta, limitando ganhos de eficiência a curto prazo. A solução provável é ampliar o time em até 10% até que a automação possa ser mais implementada. Para compensar, essas empresas acelerarão a instalação de caixas de autoatendimento em até 70% das lojas, financiando o aumento da equipe de logística e evitando a queda na rentabilidade.

Na Petrobras, o impacto recai sobre os contratos de terceirizados, que somam quase 130 mil pessoas. Já a Resolv, empresa de facilities com 10 mil funcionários, estima um aumento de 7% a 10% na necessidade de contratação. Para mitigar isso, estão negociando com clientes e explorando a automação com robôs para higiene hospitalar e drones para segurança.

Reorganizando a casa com criatividade

Algumas empresas planejam se adaptar reorganizando o que já têm. Um CEO de outra varejista de moda afirma que não pretende demitir nem contratar, mas sim reorganizar as escalas para operar com menos funcionários por loja. O risco é comprometer o atendimento, mas a aposta é em investimento em treinamento e no desenvolvimento de aplicativos para municiar vendedores com dados. A meta é fazer “mais com menos” e monitorar os resultados diariamente, reconhecendo que a alternativa pode ser um maior incentivo ao varejo online e à automação.