Prepare-se para uma tendência que está redefinindo o cenário das startups brasileiras: a diáspora tecnológica. Não estamos falando de uma fuga de talentos, mas sim de uma expansão estratégica e ambiciosa de empreendedores que buscam levar suas ideias para o palco global. O número de "brasileiros globais" – aqueles que saem do país para criar ou financiar startups lá fora – disparou de 400 para 450 em 2026, segundo a Endeavor. Isso mostra que a mentalidade de "pensar grande" está se tornando "pensar global".

Por que isso importa

Essa movimentação não é apenas uma estatística interessante; ela impacta diretamente o futuro da inovação brasileira e a forma como o capital de risco enxerga nossos talentos. Significa que nossas startups estão crescendo, amadurecendo e buscando mercados mais amplos e acesso a capital de growth que, muitas vezes, é escasso por aqui. Para o Brasil, é uma oportunidade de ter mais empresas com valuation global e de trazer de volta, no futuro, um conhecimento e uma experiência inestimáveis.

O Vale do Silício é o novo Eldorado

Não é surpresa que a Califórnia, lar do Vale do Silício, seja o destino preferido. Lá, a concentração de brasileiros empreendedores é a maior, com 89 nomes. Um exemplo é Otávio Miranda, cofundador da Gabriel no Brasil, que agora lançou a Ephemeral nos EUA. A lógica é simples: estar perto dos fundos de investimento, dos potenciais clientes e de outros pares da tecnologia acelera o crescimento e a visibilidade. Miranda destaca a diferença na mentalidade dos investidores: enquanto no Brasil questionam a viabilidade, em São Francisco buscam o potencial de ser gigantesco.

A busca por capital de growth

Um dos grandes motores dessa diáspora é a escassez de capital de growth no Brasil após a Série A. Otávio Miranda explica que, por aqui, poucas startups concentram o capital disponível anualmente. Nos EUA, o cenário é outro, com mais liquidez e apetite para apostas de alto risco e alto retorno. Isso leva empreendedores como Nicolas Camara, da Firecrawl, e Victor Lazarte, ex-Wildlife e agora com seu próprio fundo, a se instalarem na Califórnia para competir por um pedaço do bolo de empresas de IA.

Além dos EUA: Reino Unido e Portugal em ascensão

Embora os EUA liderem, outros países também atraem nossos talentos. Reino Unido e Portugal vêm na sequência, com 29 e 28 brasileiros, respectivamente. No total, a Endeavor mapeou empreendedores brasileiros em mais de 30 países e 130 cidades. Isso demonstra a diversidade e a maturidade dessa diáspora, com profissionais que combinam profundo conhecimento dos mercados brasileiro e internacional, tornando-os mais preparados para escalar empresas globalmente.

Casos de sucesso e a adaptação dos fundos

É impossível falar de sucesso global brasileiro sem mencionar a Brex, fundada por Henrique Dubugras e Pedro Franceschi, vendida por US$ 5,15 bilhões. Mas não são os únicos: Tractian, Trace Finance, Resend e Jumpstart também estão ganhando destaque. A Tractian, por exemplo, já tem metade da receita vinda dos EUA. Fundos como a Monashees abraçaram essa tendência, criando a tese "Global Latam" e até abrindo um escritório em São Francisco. A Valutia segue o mesmo caminho, captando um fundo de US$ 30 milhões para investir em empresas com essa pegada global.

Desafios da internacionalização

Crescer no mercado internacional, especialmente nos EUA, não é um conto de fadas. Empresas como a Digibee relatam ter "comido muita pedra" para construir reputação e fazer relacionamentos em um mercado tão vasto e competitivo. A dificuldade em construir um time de vendas e a necessidade de se adaptar às nuances locais são obstáculos reais. A Digibee só engrenou após três anos, com a aquisição da americana Vertify, o que acelerou sua base de clientes e trouxe o know-how necessário. A lição é clara: a expansão global exige resiliência, estratégia e, muitas vezes, capital significativo, como os US$ 90 milhões que a Digibee captou de Goldman Sachs e SoftBank.