Poucos meses depois de realizar um IPO bastante aguardado na Nasdaq, o PicPay enfrenta seu momento mais delicado como empresa de capital aberto.
Em menos de uma semana, a fintech foi alvo de duas notícias negativas: uma class action movida por investidores nos Estados Unidos e uma investigação conduzida pelo Ministério Público. A reação do mercado foi imediata. As ações acumulam queda superior a 10% desde a divulgação dos episódios e já negociam cerca de 50% abaixo do preço do IPO.
Mas, por trás das manchetes, existe uma discussão mais complexa.
Afinal, estamos diante de um problema estrutural na operação do PicPay ou de um momento em que o mercado passou a reagir de forma exagerada a qualquer sinal de risco?
A ação judicial gira em torno da qualidade da carteira de crédito
O principal foco da class action apresentada nos Estados Unidos é uma reclassificação contábil realizada pelo PicPay após o IPO.
Em março, a companhia transferiu aproximadamente R$ 600 milhões em operações de crédito da categoria de risco intermediário para a de maior risco de inadimplência. A mudança elevou as provisões para perdas em cerca de R$ 88 milhões e levou investidores a alegarem que essas informações deveriam ter sido divulgadas durante o processo da oferta pública.
Os autores da ação afirmam que o prospecto do IPO transmitia uma percepção mais otimista sobre a qualidade da carteira e sobre os modelos de análise de crédito da fintech.
O PicPay, por sua vez, sustenta que cumpriu as regras de divulgação e que as reclassificações ainda não estavam definidas durante o período da oferta. Analistas ouvidos pelo Brazil Journal consideram plausível essa interpretação, lembrando que esse tipo de ajuste costuma depender de discussões com auditores e pode ser decidido apenas próximo da divulgação dos resultados.
Os fundamentos continuam dividindo opiniões
A queda das ações sugere que parte dos investidores passou a questionar a estratégia de crescimento da companhia.
O PicPay acelerou sua expansão em crédito, segmento que impulsionou receitas e lucro, mas que também trouxe um aumento da inadimplência e maior atenção sobre a qualidade dos ativos. Esse foi, inclusive, o principal motivo para a forte reação negativa do mercado após a divulgação do balanço do primeiro trimestre.
Ao mesmo tempo, há quem enxergue exagero na correção.
Casas como a XP defendem que o mercado está excessivamente concentrado nos riscos de curto prazo e subestimando ativos importantes da empresa, como sua base de mais de 40 milhões de usuários ativos e sua capacidade de monetizar esse relacionamento ao longo do tempo.
Essa divergência ajuda a explicar por que a tese de investimento do PicPay continua sendo uma das mais debatidas entre analistas de fintechs.
O desafio de toda empresa recém-listada
Existe também um componente típico de empresas que acabaram de abrir capital.
Nos Estados Unidos, é relativamente comum que companhias que sofrem quedas expressivas após um IPO enfrentem ações coletivas de investidores. Muitas delas acabam sendo arquivadas, outras resultam em acordos, mas quase todas geram ruído adicional justamente em um momento em que a empresa ainda tenta conquistar credibilidade junto ao mercado.
Além disso, empresas recém-listadas costumam enfrentar uma base acionária mais volátil, formada por fundos de curto prazo e investidores internacionais que ajustam posições rapidamente diante de qualquer mudança de percepção. Isso tende a ampliar os movimentos das ações, tanto para cima quanto para baixo.
O mercado vai acompanhar uma métrica acima de todas
Mais do que a ação judicial ou a investigação em si, o que provavelmente definirá o futuro das ações será a evolução da carteira de crédito.
Se a inadimplência estabilizar e os modelos de concessão continuarem entregando crescimento com rentabilidade, parte das preocupações atuais tende a perder força.
Caso contrário, os questionamentos levantados pelos investidores ganharão ainda mais peso.
Em outras palavras, o mercado já deixou claro que está disposto a tolerar crescimento acelerado — desde que ele venha acompanhado de disciplina na gestão do risco.
Por que isso importa
A situação do PicPay mostra como o humor dos investidores pode mudar rapidamente após um IPO.
No início do ano, a companhia era vista como uma das histórias de crescimento mais promissoras entre as fintechs brasileiras. Poucos meses depois, passou a ser cobrada com muito mais rigor sobre a qualidade de sua carteira de crédito e a transparência de suas divulgações.
Isso não significa, necessariamente, que a tese da empresa tenha mudado.
Mas reforça uma lição conhecida do mercado financeiro: quando uma companhia se torna pública, não basta crescer rápido.
É preciso convencer investidores, trimestre após trimestre, de que esse crescimento é sustentável.
