Se alguém deixasse de pedir comida pelo iFood amanhã, a empresa continuaria tendo um negócio relevante.

Essa frase parecia absurda alguns anos atrás. Hoje, faz cada vez mais sentido.

O delivery de refeições continua sendo o coração da operação, mas deixou de ser o único motor de crescimento da companhia. Em 2025, os negócios que vão além da entrega de comida — como publicidade, serviços financeiros, supermercados, farmácias e soluções para restaurantes — já movimentaram cerca de R$ 10 bilhões em receita bruta, consolidando uma transformação silenciosa no modelo de negócios da empresa.

Na prática, o iFood está tentando fazer o mesmo movimento realizado por gigantes como Amazon e Mercado Livre: usar um negócio altamente popular para construir um ecossistema muito maior.

O delivery virou a porta de entrada

O grande diferencial do iFood nunca foi apenas entregar refeições.

Foi construir uma plataforma acessada milhões de vezes por dia.

Essa frequência de uso criou uma oportunidade rara: oferecer novos produtos para uma base gigantesca de consumidores e comerciantes sem precisar começar do zero.

Foi assim que a empresa expandiu para supermercados, farmácias, pet shops, conveniência e, mais recentemente, para serviços financeiros, publicidade digital e crédito para restaurantes.

Hoje, boa parte do crescimento acontece justamente nessas novas verticais, que aproveitam a infraestrutura logística e tecnológica já construída para o delivery.

O restaurante virou cliente de vários produtos

Essa mudança também alterou a relação do iFood com os estabelecimentos parceiros.

No início, a plataforma era apenas um canal para receber pedidos.

Hoje, ela oferece crédito, ferramentas de gestão, publicidade dentro do aplicativo, soluções de pagamento e tecnologias para aumentar vendas e fidelizar clientes.

Quanto mais serviços um restaurante utiliza, maior tende a ser sua dependência do ecossistema do iFood.

É uma estratégia conhecida no setor de tecnologia.

Em vez de vender apenas um produto, a empresa passa a oferecer uma plataforma completa para seus parceiros.

Publicidade virou um negócio bilionário

Outro pilar importante dessa transformação é a publicidade.

Com milhões de consumidores pesquisando diariamente onde comer ou o que comprar, o aplicativo passou a funcionar também como uma vitrine para restaurantes e grandes marcas.

Na prática, o iFood se tornou um canal de mídia.

Empresas pagam para aparecer em posições de destaque, promover produtos ou aumentar a visibilidade dentro da plataforma, criando uma nova fonte de receita que cresce sem depender diretamente do número de entregas realizadas.

É um modelo parecido com o adotado por Amazon, Mercado Livre e outros marketplaces globais.

O próximo passo é virar um ecossistema

O objetivo parece cada vez mais claro.

O iFood quer deixar de ser percebido como um aplicativo de delivery para se tornar uma infraestrutura de comércio local.

Isso explica investimentos em inteligência artificial, logística, meios de pagamento, crédito e serviços para comerciantes. A empresa anunciou recentemente um plano de R$ 17 bilhões em investimentos para ampliar tecnologia, novos segmentos e fortalecer seu ecossistema até 2026.

Quanto maior for o número de serviços utilizados por consumidores e restaurantes, mais difícil se torna trocar de plataforma.

Por que isso importa

O crescimento dos negócios além do delivery mostra que o futuro do iFood provavelmente será decidido muito menos pela entrega de refeições e muito mais pelos serviços construídos ao redor dela.

Essa é uma tendência observada nas maiores empresas de tecnologia do mundo. O produto que tornou a companhia conhecida continua existindo, mas passa a funcionar como ponto de entrada para negócios muito mais rentáveis.

No caso do iFood, o aplicativo deixou de ser apenas um intermediador de pedidos.

Está se transformando em uma plataforma de comércio, serviços financeiros, publicidade e tecnologia para milhões de consumidores e empresas.

Se essa estratégia der certo, o delivery continuará sendo o que levou o cliente até o aplicativo.

Mas dificilmente será o negócio que mais gerará valor no longo prazo.