A Kaszek, principal referência em venture capital na América Latina, planeia regressar ao mercado nos próximos seis a doze meses para estruturar o seu sétimo fundo focado em investimentos iniciais (early stage). A movimentação ocorre no momento em que o seu veículo anterior, o Fundo VI, entra na fase final de alocação de capital e formação de portefólio.

Em paralelo ao novo levantamento de fundos, a gestora fundada pelos criadores do Mercado Livre retém cerca de 1 milhão de dólares (perto de 1 milhão de milhões na nomenclatura internacional, ou 1 bilião de dólares na escala curta) em capital disponível para novos aportes e reservas de rondas de acompanhamento. Este montante acumulado provém de saldos dos fundos IV, V e VI, além do Opportunity Fund 3, que é o veículo direcionado para investimentos em fase de crescimento (growth) e que ainda mantém entre 70% e 75% dos seus recursos em caixa.

Os detalhes

Para contextualizar a escala financeira da Kaszek, o seu fundo anterior de early stage captou 540 milhões de dólares em 2023. A meta para este novo veículo deve orbitar valores semelhantes. No entanto, o ecossistema onde estes recursos serão injetados passou por uma profunda transformação impulsionada pela inteligência artificial generativa, gerando novos comportamentos operacionais e financeiros.

O mercado de capital de risco regista agora uma dinâmica de aceleração sem precedentes históricos. Startups integradas com IA têm atingido patamares de receita anual recorrente de 10 milhões ou 25 milhões de dólares numa fração dos meses que seriam necessários na era móvel ou da internet convencional. Essa velocidade obrigou a Kaszek a redimensionar o tamanho dos seus cheques iniciais. Os aportes em estágios muito precoces, que antes oscilavam entre 1 milhão e 5 milhões de dólares, foram reajustados para cheques de 3 milhões a 10 milhões de dólares. Nas rondas de Séries B e C, os valores podem agora alcançar até 30 milhões de dólares.

Embora a liquidez seja elevada, os critérios de seleção de fundadores foram refinados. O conhecimento técnico puro em programação perdeu peso relativo diante da automação gerada pelos copilotos de código. A preferência da gestora deslocou-se para empreendedores com competências acentuadas em vendas, capacidade de atração de talento institucional e visão preditiva de longo prazo.

Por que isso importa

À primeira vista parece pouco. Não é. O movimento da Kaszek revela uma mudança crítica na avaliação de risco das empresas de tecnologia. A inteligência artificial removeu as barreiras de entrada para a criação de novos produtos de software, o que significa que o risco de desenvolvimento técnico foi praticamente eliminado, sendo substituído pelo risco de obsolescência rápida.

Aqui a história fica interessante: o conceito tradicional de adequação ao mercado (product-market fit) deixou de ser o principal indicador de sobrevivência de uma startup. Se qualquer equipa consegue construir uma aplicação funcional em semanas utilizando modelos de linguagem globais, a vantagem competitiva baseada apenas em código tornou-se nula. O desafio central das empresas passou a ser a defensibilidade de longo prazo, aquilo que a literatura financeira clássica designa por "moat" ou fosso de proteção de mercado.

Sob o ponto de vista estratégico de alocação e incentivos, a liderança da Kaszek estabelece três novas frentes de análise competitiva:

Análise Update

A tese da Kaszek para os próximos anos valida que o valor económico da inteligência artificial não vai residir nos intermediários de software comuns, mas sim na capacidade de execução comercial dos fundadores e na posse de dados únicos. A abundância de capital disponível (o chamado dry powder) contrasta com a seletividade extrema dos investidores, que agora fogem de plataformas genéricas que correm o risco de se tornarem obsoletas a cada nova atualização do ChatGPT ou de modelos concorrentes.

O investimento na startup israelita Wonderful, focada estritamente em ajudar grandes corporações a colocar projetos de IA em produção real, ilustra perfeitamente este momento: o mercado está saturado de promessas tecnológicas, mas carente de infraestrutura de implementação e pontes operacionais eficientes.

O que observar agora

No curto prazo, os analistas devem monitorizar o ritmo de captação deste sétimo fundo de early stage e o perfil dos investidores institucionais estrangeiros (LPs) dispostos a alocar capital de risco na América Latina face ao cenário macroeconômico global.

A nível setorial, o indicador mais relevante será o mapeamento dos primeiros investimentos da Kaszek nas indústrias de energia e data centers na região geográfica latino-americana. Trata-se de uma fuga deliberada da sua tese histórica puramente focada em ativos leves (asset-light) e uma aposta direta na infraestrutura física indispensável para suportar a soberania digital e o processamento de dados na região.