Durante muito tempo, a receita das empresas de tecnologia era previsível: criar um produto novo, crescer rapidamente e conquistar milhões de usuários. A italiana Bending Spoons escolheu um caminho completamente diferente.

Em vez de apostar no próximo aplicativo revolucionário, ela decidiu comprar empresas que muitos consideravam ultrapassadas. Evernote, WeTransfer, Meetup, Brightcove, Vimeo, AOL e Eventbrite são apenas algumas das marcas que passaram por suas mãos. Agora, essa estratégia pode levar a companhia a um IPO nos Estados Unidos que a avalia em até US$ 19 bilhões.

A aposta parece contraintuitiva.

Mas talvez seja justamente isso que a torne interessante.

O negócio não é comprar startups

A Bending Spoons não procura empresas em ascensão.

Ela procura negócios digitais que já encontraram seu público, mas perderam ritmo de crescimento ou eficiência operacional.

Depois da aquisição, a empresa centraliza tecnologia, operações e inteligência artificial para reduzir custos, aumentar margens e transformar ativos considerados "esquecidos" em negócios altamente lucrativos.

É uma estratégia que mistura private equity com software.

Em vez de comprar fábricas ou redes de varejo, compra aplicativos e plataformas digitais que ainda possuem milhões de usuários, mas já não recebem tanta atenção do mercado.

A IA virou sua principal ferramenta

Grande parte dessa transformação acontece graças à inteligência artificial.

Segundo o prospecto do IPO, mais de 90% do código desenvolvido pela empresa já é escrito ou assistido por IA. Isso permite operar dezenas de produtos com equipes relativamente enxutas, automatizar processos e acelerar o desenvolvimento de novas funcionalidades.

Essa eficiência também explica uma característica pela qual a empresa ficou conhecida.

Após concluir aquisições, a Bending Spoons frequentemente promove cortes profundos nas equipes das empresas compradas. A estratégia gera críticas, mas também melhora rapidamente a rentabilidade dos ativos incorporados.

O mercado voltou a gostar de IPOs

O momento escolhido para a abertura de capital também não é coincidência.

Depois de alguns anos de poucas ofertas, o mercado americano voltou a receber grandes IPOs de tecnologia em 2026. A estreia da SpaceX reacendeu o apetite dos investidores, e empresas de software passaram a enxergar uma janela favorável para captar recursos. Nesse contexto, a Bending Spoons pretende levantar cerca de US$ 1,7 bilhão, em uma das maiores ofertas públicas de uma empresa europeia dos últimos anos.

A companhia afirma já ter identificado mais de 1.000 empresas que podem se tornar futuras aquisições.

Ou seja, o IPO não representa um ponto de chegada.

É combustível para a próxima rodada de compras.

O novo ouro da internet são empresas esquecidas

Existe uma mudança interessante acontecendo no mercado de tecnologia.

Durante décadas, investidores disputaram startups promissoras.

Agora, alguns começam a olhar para plataformas maduras que ainda possuem usuários fiéis, receita recorrente e marcas conhecidas, mas que deixaram de crescer.

Para a Bending Spoons, essas empresas representam uma oportunidade.

Em vez de construir uma audiência do zero, ela compra uma já existente e tenta torná-la mais eficiente.

É uma lógica parecida com a de Berkshire Hathaway no mercado tradicional: adquirir bons ativos, melhorar sua operação e mantê-los por muito tempo.

Por que isso importa

A história da Bending Spoons mostra que nem toda empresa de tecnologia precisa inventar o futuro.

Às vezes, existe muito valor escondido no passado.

Enquanto boa parte do Vale do Silício corre atrás da próxima grande inovação, a companhia italiana construiu um negócio bilionário revitalizando marcas que muitos já haviam descartado.

No fim das contas, o maior ativo da internet pode não ser o próximo aplicativo viral.

Pode ser aquele que todo mundo achou que já tinha morrido.