Tudo começa séculos antes de Joseph Safra nascer.

Desde o século XIX, o clã Safra é formado por banqueiros, todos judeus halabim, uma das mais renomadas classes mercantis do Oriente Médio. Os primeiros membros da família trocavam moeda e metais preciosos, além de conceder crédito para comerciantes na cidade de Alepo, no norte da Síria, então um grande entreposto comercial. Rapidamente a Safra Frères et Cie, fundada por volta de 1800, ficou reconhecida em toda a região.

Durante o Império Otomano, os Safra financiavam o comércio de caravanas entre Beirute, Alepo, Istambul e Alexandria. Era uma época em que uma carta de crédito valia mais do que uma espada, e os Safra sabiam disso melhor do que ninguém.

O banco se tornou o mais usado entre os comerciantes sefarditas da região. Seu sucesso se deu em parte por usar o árabe antigo nos registros formais bancários, um idioma falado apenas entre sefarditas de classe alta. Assim, o banco possuía uma camada extra de proteção: se os registros fossem roubados, não poderiam ser entendidos. Segurança disfarçada de língua. Genialidade pura.

Jacob Safra: o pai que tudo ensinou

Joseph Safra nasceu em 1938 em Beirute, no Líbano, dentro de uma família judaica com mais de um século de experiência no setor bancário. Suas origens também estão na cidade de Alepo, na Síria, onde seu pai Jacob Safra nasceu. Muito antes de ter filhos, Jacob viveu na tradicional cidade do norte sírio, ponto de confluência dos três continentes e rota das caravanas que capitaneavam o comércio terrestre entre o Ocidente e o Oriente. Aos 23 anos, Jacob foi enviado pelo tio Ezra Safra a Beirute para abrir uma filial da Safra Frères & Cie, que pertencia à sua família desde meados do século XIX. A casa operava como um banco, fazendo empréstimos e câmbio entre ouro e moedas de países asiáticos, europeus e africanos. No Líbano, Jacob fundou um novo banco em 1920 com seu próprio nome: Banco Jacob E. Safra.

Mas o mundo estava prestes a virar de cabeça para baixo.

Após a criação do Estado de Israel em 1948, os judeus passaram a ser perseguidos na região. Em 1949, a família se mudou para Milão, na Itália. Em 1952, Jacob se mudou para São Paulo, no Brasil.

Jacob Safra trouxe junto o que mais importava: o nome, a reputação, e um lema que seus filhos jamais esqueceriam. "Se escolher navegar os mares do sistema bancário, construa seu banco como construiria seu barco: sólido para enfrentar, com segurança, qualquer tempestade."

A chegada ao Brasil e a construção silenciosa de um império

Em 1952, a família Safra se instalou em São Paulo. Em 1955, criou o Banco Safra SA, que inicialmente administrava o dinheiro de outros judeus.

O timing era peculiar. A comunidade judaica no Brasil temia que o governo pudesse se voltar contra eles, assim como acontecera na Alemanha e no Oriente Médio. Mesmo assim, os Safra ficaram. E cresceram.

Em 1972, com o sucesso das operações, adquiriram o Banco das Indústrias, e foi após essa compra que o nome Banco Safra passou a ser oficialmente utilizado.

Joseph estudou na Inglaterra e teve passagem pelo Bank of America antes de mergulhar de cabeça nos negócios da família. Seu estilo era inconfundível: o estilo de gestão de Joseph sempre foi considerado minucioso e envolvia muito estudo sobre os riscos do negócio. Ao contrário de seu irmão mais velho, Edmond, que se tornou a figura mais pública dos Safra ao gerir os empreendimentos da família fora do Brasil, Joseph nunca frequentou colunas sociais e raramente concedeu entrevistas.

Enquanto Edmond brilhava em Genebra e Nova York, Joseph construía em silêncio. Tijolo por tijolo. Depósito por depósito.

O irmão que morreu e o mistério que nunca fechou

A história dos Safra não é feita só de glória. Em 1999, ela ganhou uma sombra que jamais se dissipou completamente.

Edmond Safra, o irmão mais famoso, mais público, mais extravagante, havia acabado de realizar o negócio da sua vida: vendeu sua participação em suas instituições financeiras ao HSBC por US$ 10,3 bilhões em dinheiro, o maior negócio bancário de sua época. Era dezembro de 1999. Ele estava em Mônaco.

Nas primeiras horas de 3 de dezembro de 1999, Edmond Safra perdeu a vida asfixiado, trancado no banheiro, ao lado da enfermeira Viviane Torrente.

O que aconteceu? Um de seus enfermeiros, o americano e ex-integrante das Forças Especiais Ted Maher, convenceu Safra de que havia invasores armados no apartamento. Safra se trancou em um quarto de pânico e se recusou a abrir a porta para os bombeiros. A falsa ameaça atrasou o resgate e selou o desfecho. Maher confessou ter iniciado o fogo para encenar um resgate heroico e foi condenado em 2002 por incêndio criminoso com resultado morte.

Mas as teorias nunca pararam. Alguns apontavam para a máfia russa, depois que Safra entregou ao FBI informações sobre lavagem de dinheiro que passava por seu banco. Havia também quem acreditasse firmemente que o assassinato havia sido encomendado por sua esposa Lily. Entre os que apoiavam essa versão estavam os irmãos de Edmond, Joseph e Moisés.

A morte de Edmond abalou Joseph profundamente. Os dois tinham uma relação complexa, parceiros, rivais, irmãos. Com o falecimento do mais velho, coube a Joseph recolher os cacos e seguir em frente.

O banqueiro mais conservador do mundo

De volta ao Brasil, Joseph construiu algo raro no capitalismo selvagem dos anos 1990 e 2000: um banco que nunca explodiu.

Joseph Safra herdou de seu pai o apreço pelo conservadorismo extremo nas finanças e grande habilidade de multiplicar dinheiro. O banqueiro detestava risco e acumulou sua riqueza pensando a longo prazo. O Banco Safra é conhecido pela manutenção da liquidez nas suas operações.

Enquanto outros bancos apostavam no crédito fácil, em fusões arriscadas, em aventuras imobiliárias, Joseph ficava quieto, guardava dinheiro e esperava. E quando a tempestade chegava, estava de pé enquanto os outros afundavam.

Em 2004, ele criou o J. Safra, instituição similar ao Safra, que oferece o mesmo tipo de serviço aos clientes e está separado fisicamente por apenas alguns metros na Avenida Paulista. Dois bancos, mesma rua, mesmo dono. Um para o banco comercial, outro para private banking. Uma elegância quase absurda.

Em 2012, expandiu para a Suíça: Joseph Safra adquiriu o banco Suíço Sarasin e criou o J. Safra Sarasin.

O homem por trás do bilhão

O que poucos sabem sobre Joseph Safra é que, por baixo do terno discreto e das declarações monossilábicas para a imprensa, havia um homem de gostos surpreendentes.

Embora só se deslocasse pela capital paulista de helicóptero, Joseph não tinha um estilo de vida extravagante. Nas raríssimas entrevistas, sempre deixou claro que gostava de levar uma vida simples e tinha outras paixões, como o gosto por livros caros e raros, que faziam dele um dos maiores colecionadores de obras do país.

Era torcedor do Corinthians. Ia aos jogos com os filhos e os seguranças. Falava português, inglês, francês, espanhol, italiano, árabe e hebraico, sete línguas, sem nunca precisar de intérprete em nenhum dos continentes onde fazia negócios.

Tinha também uma relação intensa com seus funcionários. Essa proximidade era tanta que ele se irritava quando algum colaborador deixava o Banco Safra por um concorrente. Em suas palavras: "Eu não gosto que tirem funcionários do meu banco."

E pedia para ser chamado de Seu José.

A filantropia que poucos viam

Joseph foi um dos principais doadores dos hospitais paulistanos Albert Einstein e Sírio-Libanês, além de apoiar associações beneficentes como a Fundação Dorina Nowill para Cegos, o GRAAC, a Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer e a APAE. Na cultura, por meio do Instituto J. Safra, adquiriu e doou esculturas de Auguste Rodin, Aristide Maillol e Camille Claudel à Pinacoteca de São Paulo.

O fim e a herança disputada

Assim como dois dos seus irmãos, Joseph também foi diagnosticado com Mal de Parkinson. O tempo castigava e a doença avançava, mas isso não desacelerou o homem quando precisou continuar lutando.

Joseph Safra sofria de Parkinson e viveu até seus últimos dias numa mansão de 11 mil metros quadrados na capital paulista.

Ele faleceu em dezembro de 2020 e, na época, tinha uma fortuna estimada em US$ 23,3 bilhões, tornando-o o homem mais rico do Brasil, o 37º do mundo e o banqueiro com o maior patrimônio do planeta.

Morreu como viveu: discreto. Sem entrevistas finais. Sem grandes declarações.

Mas a história não terminou aí. Depois da morte, a briga bilionária da família Safra ganhou novos capítulos: Alberto Safra, um dos herdeiros, abriu processo na Justiça de Nova York contra sua mãe Vicky e os irmãos Jacob e David, reclamando a diluição ilegal de sua participação na holding que controla o Safra National Bank americano.

O homem que detestava risco deixou para trás uma fortuna grande demais para não gerar turbulência.

A lição de Joseph Safra: enquanto todo o mundo corria para o próximo negócio brilhante, ele ficava parado, sólido, esperando a próxima tempestade. E sobreviveu a todas.

"Construa seu banco como construiria seu barco."

Jacob disse isso. Joseph fez.