Se você passa muito tempo no X, LinkedIn ou no Vale do Silício, é fácil acreditar que estamos vivendo em um mundo onde praticamente todo mundo conversa com IA o dia inteiro.

Executivos afirmam que a inteligência artificial vai substituir profissões inteiras. Investidores falam sobre uma transformação econômica comparável à internet. Manchetes sugerem que a IA está em toda parte.

Mas há um problema.

Os dados não parecem concordar.

Em um ensaio que ganhou repercussão nos últimos dias, Gabriel Weinberg — fundador do DuckDuckGo — argumenta que a narrativa de que "todo mundo está usando IA para tudo" simplesmente não é sustentada pelas evidências disponíveis. Segundo sua análise, baseada em pesquisas da Gallup, dados da Microsoft e estudos de comportamento digital, a maior parte da população ainda não incorporou a inteligência artificial ao dia a dia.

A observação é importante porque revela uma distância crescente entre a percepção criada pela bolha tecnológica e o que está acontecendo no mundo real.

A adoção é muito menor do que parece

A principal conclusão de Weinberg é simples.

A inteligência artificial está crescendo rapidamente, mas continua concentrada em uma minoria de usuários.

Segundo os dados analisados por ele, aproximadamente 30% da população americana em idade ativa utiliza IA de alguma forma. Isso significa que cerca de 70% das pessoas não utilizam essas ferramentas regularmente ou sequer as utilizam. Entre os usuários, uma parcela significativa acessa a tecnologia apenas ocasionalmente.

Isso não significa que a IA não seja relevante.

Significa que estamos muito longe de um cenário de adoção universal.

A diferença parece pequena, mas muda completamente a interpretação do momento atual.

A bolha tecnológica cria uma ilusão de escala

Parte da confusão acontece porque as pessoas que trabalham com tecnologia estão cercadas por outras pessoas que trabalham com tecnologia.

Para um desenvolvedor, investidor ou fundador de startup, o uso diário de ChatGPT, Claude, Gemini ou outras ferramentas já parece algo óbvio.

Mas esse comportamento não necessariamente representa a média da população.

É um fenômeno semelhante ao que aconteceu com criptomoedas, realidade virtual e até redes sociais em seus estágios iniciais. Dentro de determinados círculos, parecia que todo mundo estava usando a tecnologia. Fora deles, a adoção era muito menor.

O resultado é uma espécie de distorção coletiva.

Confundimos a experiência da nossa rede de contatos com a experiência do mercado inteiro.

O futuro pode continuar enorme mesmo sem adoção em massa

O argumento de Weinberg não é que a IA seja uma moda passageira.

Muito pelo contrário.

O ponto é que existe uma diferença entre uma tecnologia promissora e uma tecnologia amplamente adotada.

A internet transformou o mundo.

Mas não transformou o mundo em três anos.

Os smartphones se tornaram onipresentes.

Mas levaram mais de uma década para alcançar a escala atual.

Com a inteligência artificial, parte do mercado parece assumir que o estágio final da adoção já chegou quando, na realidade, ainda estamos nos primeiros capítulos da história.

O dado mais importante pode ser outro

Talvez a observação mais interessante seja que a adoção parece estar desacelerando em alguns grupos após a explosão inicial.

Os primeiros usuários correram para experimentar as ferramentas. Empresas incentivaram testes. Escolas começaram a discutir o tema. Profissionais passaram a incorporar IA em fluxos de trabalho específicos.

Agora surge a fase mais difícil.

Transformar curiosidade em hábito.

Historicamente, é nesse momento que muitas tecnologias descobrem seu verdadeiro tamanho de mercado.

Não basta que as pessoas experimentem.

Elas precisam continuar usando.

O mercado talvez esteja olhando para a métrica errada

Existe uma tendência de avaliar a IA apenas pelo número de usuários.

Mas talvez essa não seja a métrica mais relevante.

A internet mudou o mundo quando bilhões de pessoas passaram a utilizá-la.

A inteligência artificial pode gerar impacto econômico significativo mesmo com uma base menor, desde que seja utilizada intensamente por profissionais, empresas e setores estratégicos.

A questão não é apenas quantas pessoas usam IA.

É quanto valor elas conseguem criar com ela.

Por que isso importa

Porque existe uma diferença enorme entre uma tecnologia que todo mundo conhece e uma tecnologia que todo mundo usa.

A inteligência artificial claramente pertence à primeira categoria.

A segunda ainda está em disputa.

O texto de Gabriel Weinberg funciona como um lembrete importante de que a adoção tecnológica raramente acontece de forma linear. A bolha da IA pode fazer parecer que o futuro já chegou. Os dados sugerem algo diferente: ele está chegando, mas de forma muito mais gradual do que as manchetes indicam.

E talvez essa seja a conclusão mais interessante.

A revolução da IA pode ser real sem que todo mundo esteja participando dela — pelo menos por enquanto.