Vida de executivo de banco digital não é fácil. Um dia você está na praia de Miami comemorando o recorde de abertura de contas, no outro, os investidores aparecem na sua assembleia geral com uma planilha de Excel e cara de poucos amigos. É exatamente esse o clima nos bastidores do Inter.
A instituição financeira, que se consolidou como um dos principais players do setor e transferiu sua sede oficial para os EUA, entrou na mira de fundos de investimento globais. O motivo do descontentamento? A polêmica política de remuneração da sua diretoria e do conselho de administração. Sob o mantra da governança corporativa, os acionistas decidiram que canetear bônus milionários sem amarras claras de performance já não passa mais no filtro do mercado.
O cifrão da discórdia nas assembleias
Para quem olha de fora, o Inter vive um momento de expansão. Mas o investidor institucional — aquele sujeito de terno cinza que cuida do dinheiro de fundos de pensão bilionários — opera em outra frequência. A bronca gira em torno de alguns pontos específicos:
- O desalinhamento: Os críticos alegam que o pacote de compensação financeira dos principais executivos cresceu em um ritmo que não acompanha proporcionalmente o retorno real gerado para o acionista na bolsa.
- A caixinha preta: Falta transparência nos gatilhos de metas. O mercado quer saber exatamente o que o executivo precisa entregar para destravar aquele lote generoso de ações ou o bônus de fim de ano.
- O efeito manada ao contrário: Movimentos parecidos de rebeldia de acionistas já atropelaram gigantes lá fora, e agora a pressão por governança (o famoso "G" da sigla ESG) bateu com força na porta do banco da família Menin.
Por que isso importa
Porque a era do "crescimento a qualquer custo" acabou e agora o mercado exige juízo. Nos tempos áureos de juros baixos, os investidores aceitavam que as fintechs queimassem montanhas de dinheiro e pagassem salários astronômicos para reter talentos do Vale do Silício, desde que o número de clientes subisse.
Hoje, a música mudou. Com o sarrafo da rentabilidade lá no alto, o mercado pune empresas que parecem premiar a diretoria pelo esforço, e não pelo lucro real distribuído. O questionamento no Inter serve de alerta para todo o ecossistema de tecnologia e finanças da América Latina: a governança corporativa deixou de ser um slide bonito de apresentação institucional para virar uma arma de veto na mão de quem assina o cheque.
É a velha ironia do capitalismo moderno. Você passa anos convencendo o mercado de que sua empresa é moderna, global, transparente e pronta para os palcos de Nova York. Aí o mercado acredita, compra as suas ações e usa justamente essa transparência para auditar até o cafezinho da diretoria.
O Inter fez um trabalho brilhante de escala nos últimos anos, mas operar sob o escrutínio de Wall Street exige uma casca grossa que muitas lideranças brasileiras ainda estão aprendendo a desenvolver. Justificar salários dignos de popstar de Hollywood enquanto o acionista minoritário espera o papel valorizar é uma conta que simplesmente não fecha mais na planilha dos gringos.
Se até os tubarões do mercado financeiro estão achando o bônus dos banqueiros exagerado, imagine o cidadão comum que chora ao ver a cobrança da anuidade do cartão.