Uma rodada secundária de pelo menos US$ 750 milhões, prevista para começar em 15 de junho, pode elevar o valuation da fintech britânica a US$ 115 bilhões, quase o dobro dos US$ 58 bilhões em que o Nubank é negociado na Bolsa de Nova York. Os números vêm de um relatório do BTG Pactual assinado pelos analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, que colocou as duas empresas lado a lado pela primeira vez de forma tão detalhada.
O resultado é um retrato revelador sobre como o mercado está precificando o futuro dos bancos digitais.
Quem é a Revolut e por que ela importa para o Brasil
Fundada em 2015 pelo engenheiro russo Nikolay Storonsky em Londres, a Revolut começou como um cartão de viagem sem tarifas de câmbio. Hoje, é uma plataforma financeira com 63,8 milhões de clientes em mais de 38 países, oferecendo conta corrente, investimentos, criptomoedas, câmbio, seguros e produtos para empresas.
A empresa já está no Brasil e Storonsky não esconde a ambição. Em entrevista concedida no ano passado, ele foi direto: "Mais cedo ou mais tarde nossos produtos serão muito melhores comparados a qualquer banco local de qualquer país."
Em março de 2026, a Revolut solicitou licença bancária nos Estados Unidos e nomeou Cetin Duransoy como CEO americano. O IPO, por enquanto, está fora do radar, a empresa não deve abrir capital antes de 2028. Enquanto isso, prefere captar via rodadas secundárias, controlando narrativa e valuation.
Os números: onde cada um lidera
O relatório do BTG é equilibrado, e justamente por isso é tão revelador. Não há um vencedor absoluto. Há dois modelos de negócio diferentes sendo comparados, e o mercado está escolhendo um deles para pagar mais caro.
Clientes: vantagem do Nubank. O banco fundado por David Vélez, Cristina Junqueira e Edward Wible tem 131 milhões de clientes, quase o dobro dos 63,8 milhões da Revolut. Em escala de usuários, o Nubank ainda não tem rival entre as fintechs globais.
Depósitos totais: vantagem da Revolut. A fintech britânica terminou 2025 com US$ 65,3 bilhões em depósitos, contra US$ 41,9 bilhões do Nubank. Ter menos clientes, mas mais dinheiro depositado, diz algo importante sobre o perfil do usuário de cada plataforma.
Tíquete médio por cliente: vantagem expressiva da Revolut. Cada cliente da Revolut deposita, em média, US$ 1.024. O do Nubank deposita US$ 320. Uma diferença de 220%. Isso reflete, em parte, o perfil de renda mais elevado da base europeia, mas também a capacidade da Revolut de capturar uma fatia maior da vida financeira de cada usuário.
Crescimento de receita: vantagem da Revolut. A fintech britânica cresceu 49% em receita no último ano. O Nubank cresceu 37%, número que qualquer outra empresa comemoraria, mas que aqui vira segundo lugar. A receita total da Revolut em 2025 foi de US$ 5,8 bilhões; o lucro líquido, de US$ 2,3 bilhões.
Crescimento do lucro: vantagem da Revolut. Alta de 68%, contra 46% do Nubank.
Crédito: vantagem clara do Nubank. Aqui o banco brasileiro domina sem discussão, US$ 32,7 bilhões em carteira de crédito, contra apenas US$ 2,9 bilhões da Revolut. O Nubank é, fundamentalmente, uma máquina de crédito. A Revolut, por enquanto, não é.
Por que o mercado paga mais pela Revolut
Com valuation de US$ 115 bilhões, a Revolut estaria sendo negociada a um preço/lucro de 67,8 vezes, ante 20,5 vezes do Nubank. Uma diferença de 231%.
Isso não é distorção. É tese.
O mercado está apostando que o modelo da Revolut, mais leve em capital, mais diversificado em produtos, mais global em presença. tem maior potencial de escala do que o modelo de crédito concentrado na América Latina que o Nubank representa.
Não é um julgamento de qualidade. É uma aposta sobre onde está o crescimento futuro.
O BTG resume com precisão cirúrgica: "O Nubank continua sendo mais focado em crédito e na América Latina, enquanto o Revolut possui um perfil mais global e mais leve em capital."
O que está em jogo para o Nubank
O Nubank não está em crise. Longe disso. Crescer 37% de receita e 46% de lucro num ano é resultado que a maioria das empresas listadas em bolsa jamais vai ver.
Mas a comparação com a Revolut expõe uma vulnerabilidade estratégica real: dependência do crédito como principal motor de receita, e dependência da América Latina como principal mercado.
Crédito é cíclico. Em períodos de juros altos e inadimplência elevada, como o Brasil viveu recentemente, a rentabilidade sofre. A Revolut, com receita diversificada entre câmbio, assinaturas, criptomoedas e serviços empresariais, tem um perfil de receita mais resiliente a choques macroeconômicos.
Além disso, a Revolut está chegando ao Brasil com produtos cada vez mais competitivos, enquanto o Nubank ainda precisa provar que consegue crescer além das fronteiras da América Latina.
A corrida ainda não acabou. Mas o mercado já está sinalizando quem ele acha que vai ganhar.
O que vem a seguir
A rodada da Revolut deve ser formalizada no dia 15 de junho e encerrada até agosto, segundo fontes consultadas pelo site The Information. A captação será liderada pela Glade Brook, investidora atual da Revolut com posições também em Stripe e Ramp, e deve contar com participação de nomes como Andreessen Horowitz, Tiger Global, SoftBank e TCV.
Com o valuation de US$ 115 bilhões, Storonsky deve se tornar uma das pessoas mais ricas da Europa. Sua participação hoje é de cerca de 25% e ele afirmou que chegará a 29% após a rodada.
O IPO segue fora do horizonte imediato. A memória da Klarna ainda está viva: as ações da fintech sueca caíram 56% desde sua abertura de capital nos Estados Unidos em setembro do ano passado. Por ora, a Revolut prefere o controle das rodadas privadas.
A linha do fundo
Nubank e Revolut são dois dos maiores experimentos em banco digital da história. Um nasceu para incluir quem os bancos tradicionais ignoravam. O outro nasceu para servir quem viajava o mundo e não queria pagar por isso.
Hoje, os dois brigam pelo mesmo troféu: ser a plataforma financeira principal de milhões de pessoas ao redor do planeta.
O mercado está dizendo que a Revolut chega lá primeiro. O Nubank tem até 2028, quando a britânica deve abrir capital, para provar que a aposta está errada.
