A Raízen conseguiu costurar um acordo histórico que afasta as incertezas sobre sua estrutura de capital e redefine os rumos de um dos maiores conglomerados de energia do Brasil.
A companhia obteve a adesão formal de 75% de seus credores ao plano de recuperação extrajudicial proposto pela diretoria. O percentual atinge com folga o limite legal exigido pela Lei de Recuperação e Falências (que estipula um quórum mínimo de mais da metade dos créditos de cada classe afetada), garantindo o suporte necessário para que a empresa dê entrada no pedido de homologação judicial com um cenário de amplo consenso de mercado.
A velocidade e o alto índice de aprovação do plano demonstram a confiança do setor financeiro na viabilidade operacional de longo prazo da companhia, apesar do forte aperto de liquidez recente.
Os termos do acordo e o alívio no fluxo de caixa
A aprovação do plano extrajudicial representa uma vitória macroeconômica para a administração da Raízen, permitindo um redesenho agressivo de seu cronograma de amortizações.
O plano acordado com os principais bancos e detentores de títulos prevê o alongamento dos prazos de vencimento das dívidas de curto e médio prazo, além de carências para o pagamento do principal e uma repactuação das taxas de juros atreladas ao CDI. Em troca, a Raízen se comprometeu a seguir uma cartilha rígida de eficiência, que inclui a venda de ativos não-estratégicos (assets disposal), a redução drástica de investimentos de capital (Capex) em projetos de expansão e foco total na geração de caixa de suas operações maduras de refino e distribuição.
Ao optar pela via extrajudicial de forma consensual, a companhia evitou o desgaste de imagem e a destruição de valor associados a uma recuperação judicial tradicional, mantendo suas operações logísticas e contratos de fornecimento rodando sem interrupções.
Sinalização para o setor de energia e agronegócio
O desfecho bem-sucedido da negociação da Raízen injeta uma forte dose de previsibilidade e alívio em toda a cadeia sucroenergética e de distribuição do país.
Como a empresa é uma das maiores compradoras de cana-de-açúcar e uma das principais distribuidoras de combustíveis do território nacional (através da rede de postos Shell), um processo de reestruturação desordenado poderia travar o crédito e gerar um efeito cascata em centenas de fornecedores e cooperativas. Com o balanço equacionado e o respaldo de três quartos de seus credores, a Raízen ganha o fôlego financeiro necessário para atravessar o atual ciclo de juros altos e focar na rentabilidade de suas operações principais nos próximos anos.