Embora o mercado ainda aguarde detalhes sobre o montante que a empresa pretende captar, a Anthropic já atinge um patamar histórico: avaliada em US$ 900 bilhões, ela supera o valuation de balcão da sua principal rival, a OpenAI, colhendo os frutos de ter focado desde o início no mercado corporativo e na governança de dados.
A Vantagem de Ser Público: O Caso Prático da Alphabet
O movimento da Anthropic ocorre no exato momento em que as Big Techs tradicionais demonstram o poder avassalador de ter acesso direto à liquidez do mercado de ações. A Alphabet (controladora do Google) deu uma demonstração de força ao anunciar a venda de impressionantes US$ 80 bilhões em novas ações para financiar a expansão agressiva de sua infraestrutura de data centers.
- O Cheque de Warren Buffett: Desse montante, US$ 10 bilhões serão comprados pela Berkshire Hathaway, o conglomerado do megainvestidor Warren Buffett, em uma operação intermediada pelo Goldman Sachs. O aporte consolida a Alphabet como uma das maiores posições históricas da Berkshire, coroando uma mudança estrutural na tese de Buffett, que historicamente evitava empresas de tecnologia puras (com exceção da Apple).
- A Discrepância do Fluxo de Caixa: A Alphabet tem o luxo de financiar sua expansão usando o próprio caixa e o mercado de ações porque gerou US$ 62,6 bilhões em lucro líquido apenas no último trimestre, cerca de US$ 62 bilhões a mais do que OpenAI ou Anthropic jamais geraram em suas histórias. A controladora do Google projeta que seus investimentos em bens de capital (CapEx) atingirão US$ 190 bilhões este ano**, um salto de seis vezes em relação a 2022.
Os Desafios e as Contas da Anthropic
Apesar do entusiasmo dos investidores iniciais, como a Amazon (que já registra um retorno de mais de 9x o valor investido) e a Salesforce, a Anthropic precisará responder a perguntas severas dos auditores do mercado público antes de estrear no pregão:
- A Queima de Caixa com Infraestrutura: A empresa iniciou uma escalada de gastos sem precedentes para garantir poder computacional. Recentemente, fechou um contrato bilionário para pagar à SpaceX o valor de US$ 1,25 bilhão por mês para alugar capacidade de data centers. Embora a Anthropic esteja a caminho de registrar um lucro operacional de US$ 559 milhões no trimestre atual, analistas apontam que a margem dificilmente se sustentará diante desses custos cavalares de processamento.
- O Embate com o Pentágono: A startup enfrenta uma batalha de bastidores com o Departamento de Defesa dos EUA (Pentágono) em torno dos limites éticos e regulatórios impostos ao uso militar de seus modelos de linguagem, o que pode travar contratos públicos gordos.
- A Disputa por Liquidez: Tanto a Anthropic quanto a OpenAI correm para garantir o dinheiro dos grandes fundos institucionais antes que a SpaceX, que também controla a xAI de Elon Musk, absorva toda a liquidez disponível no mercado. Demonstrando tranquilidade, o CEO da OpenAI, Sam Altman, minimizou a pressa em abrir o capital: "O IPO é apenas um evento de financiamento, e não estamos focados no timing disso agora", declarou à CNBC.
Por que isso importa: O IPO confidencial da Anthropic marca a transição da era do "hype" da IA para a era da entrega de valor financeiro real e governança corporativa. Empresas de capital fechado conseguem esconder suas ineficiências operacionais sob novas rodadas de investimento privado. Ao entrar na Bolsa, a Anthropic passará a ter suas métricas de queima de caixa por token destrinchadas publicamente. Esse movimento forçará o mercado a precificar a inteligência artificial não mais por promessas tecnológicas de longo prazo, mas sim pela capacidade real de gerar receita recorrente sustentável de empresas reais.
Sim, mas... É fundamental quebrarmos a quarta parede sobre o otimismo perigoso que cerca esse valuation de US$ 900 bilhões da Anthropic antes de ela enfrentar o escrutínio público real. Estar avaliada em quase um trilhão de dólares no mercado privado, amparada por acordos de troca de favores (onde a Amazon injeta bilhões e a Anthropic devolve esses mesmos bilhões comprando créditos de nuvem da AWS), é uma engenharia financeira confortável. Na Bolsa de Valores, a realidade é muito mais cruel. Os investidores institucionais vão olhar para o fato de que a Anthropic gasta mais de US$ 1,2 bilhão por mês alugando servidores da SpaceX e vão se perguntar: cadê a margem de lucro de uma empresa de software? Se a economia desacelerar e os clientes corporativos começarem a cortar custos com assinaturas de modelos de IA caros, a Anthropic pode descobrir que o mercado público não tolera empresas que queimam bilhões para sustentar valuations inflados, transformando o sonho do IPO de um trilhão de dólares em uma severa correção de preços que puxará todo o setor de tecnologia para baixo.
No final das contas, o movimento da Anthropic dita o tom dos mercados de capitais para o segundo semestre de 2026. A empresa que conseguir abrir as portas da Bolsa primeiro e captar os bilhões que estão esperando à beira do campo garantirá o oxigênio financeiro necessário para sobreviver à guerra de atrito de custos que define a sobrevivência na indústria dos semicondutores e da inteligência artificial de fronteira.