Antes de entrar nos detalhes, um número que diz muito: a SpaceX está buscando uma avaliação de aproximadamente US$ 1,77 trilhão por meio de seu IPO, o que a colocaria imediatamente entre as maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos, a sétima maior em valor de mercado. Para ter uma ideia do tamanho disso, a Petrobras inteira vale pouco mais de US$ 80 bilhões. Estamos falando de algo mais de 20 vezes maior.

Mas tem um detalhe que vai fazer o leitor apertar o freio: a SpaceX registrou um prejuízo líquido de US$ 4,94 bilhões em 2025, e a avaliação pretendida no IPO implica um múltiplo de 94,53 vezes as vendas anuais. Para comparar, as ações da Tesla estão sendo negociadas atualmente a aproximadamente 16,73 vezes a receita esperada para 2025. Ou seja: a SpaceX está pedindo para ser avaliada a um múltiplo quase seis vezes maior que o da Tesla, com prejuízo bilionário no balanço.

Então por que tanta gente quer entrar?

A resposta tem nome: Elon Musk.

O "prêmio Musk" em Wall Street

Existe, no mercado financeiro americano, algo que analistas já chamam informalmente de "Elon premium", a disposição dos investidores de pagar mais caro por uma empresa simplesmente porque ele está no comando. É o mesmo fenômeno que fez a Tesla ser avaliada como se fosse uma empresa de tecnologia quando, na prática, ainda é uma montadora.

John Plassard, chefe de estratégia de investimento da gestora suíça Cité Gestion, afirmou que se sentiria confortável em pagar de 20% a 30% a mais por ações de uma empresa liderada por Musk, devido à confiança na execução da gestão e na criação de valor a longo prazo.

Isso não é irracional. O histórico de Musk é real. A Tesla foi de empresa à beira da falência a maior montadora do mundo por valor de mercado. A SpaceX fez o que a NASA levou décadas para tentar: reusabilidade de foguetes em escala comercial. O Starlink virou infraestrutura crítica em zonas de conflito, de Gaza à Ucrânia. Quando alguém diz que confia nesse cara, não é só fé, é dado histórico.

Mas fé tem limite.

O que os céticos estão vendo

Nem todo mundo está animado. Os críticos levantam três pontos principais, e todos eles merecem atenção.

O primeiro é o múltiplo absurdo. Pagar 94 vezes a receita por uma empresa que dá prejuízo exige uma trajetória de crescimento quase perfeita por muitos anos seguidos. Qualquer tropeço, um acidente com o Starship, uma perda de contrato com a NASA, uma recessão global, e o preço das ações pode derreter com força.

O segundo ponto é o braço de inteligência artificial. Franco Granda, analista sênior da PitchBook, questionou a viabilidade dos centros de dados orbitais, uma área onde a viabilidade comercial permanece em grande parte não comprovada, afirmando ser impossível avaliar algo que simplesmente não se pode ver, testar ou comparar. Parte da tese de crescimento da SpaceX passa por esse negócio, que ainda é, basicamente, ficção científica com possibilidade de virar realidade.

O terceiro ponto envolve o Grok, o chatbot da xAI que Musk controla separadamente. Nicolas Owens, analista da Morningstar, afirmou não considerar o Grok um dos principais laboratórios de IA atualmente, e que nenhum resultado modelado para esse negócio contribui significativamente para cima ou para baixo na avaliação da empresa. O mesmo Owens estimou o valor justo da SpaceX em cerca de US$ 780 bilhões, menos da metade do que a empresa está pedindo.

O que acontece com quem já tem Tesla?

Muitos investidores estão diante de uma escolha incômoda. Desde que a SpaceX protocolou confidencialmente seu pedido de IPO, as ações da Tesla subiram cerca de 10%, o mercado está lendo o IPO como positivo para o ecossistema Musk como um todo.

Mas há quem veja as duas empresas como complementares, não concorrentes. Tejas Dessai, diretor de pesquisa da Global X, afirmou ter confiança de que Tesla e SpaceX podem ter sucesso ao mesmo tempo, e que as considera empresas complementares.

O gestor Adam Sarhan, da 50 Park Investments, vai na mesma linha, mas com uma ressalva prática: prefere esperar alguns meses após o IPO antes de comprar qualquer ação, para que o preço se estabilize depois da estreia. É o tipo de conselho que soa óbvio mas que pouquíssimas pessoas seguem na prática, euforia de IPO é forte.

Tem também a especulação que circula entre os investidores mais ousados: uma eventual fusão entre Tesla e SpaceX. Michael Hewson, analista da iForex, chegou a afirmar que, em algum momento no futuro, caso o IPO seja bem-sucedido, a Tesla poderia ser absorvida pela SpaceX. Outros veem a capacidade industrial da Tesla como um ativo valioso para as ambições de longo prazo da SpaceX em Lua e além. É especulação pura por enquanto, mas do tipo que move mercado.

O que a história dos grandes IPOs nos ensina

Vale lembrar que IPOs de empresas muito aguardadas têm um histórico misto. Facebook estreou fraco e demorou mais de um ano para recuperar o preço de abertura. Uber e Lyft nunca voltaram ao patamar do IPO. Por outro lado, quem comprou Google ou Amazon no IPO e segurou ficou milionário.

O tamanho da demanda, US$ 250 bilhões em pedidos para uma oferta de US$ 60 bilhões, indica que os primeiros dias serão de euforia. Mas euforia de abertura raramente diz algo sobre o preço em 12 ou 24 meses.

Por que isso importa

O IPO da SpaceX não é só mais uma listagem bilionária. É uma prova de estresse para o mercado americano inteiro.

Se a oferta for absorvida a US$ 1,77 trilhão, isso sinaliza que Wall Street está disposta a pagar por narrativas de longo prazo mesmo diante de fundamentos frágeis no curto prazo, o que tem implicações diretas para como outras empresas de tecnologia e deep tech serão avaliadas nos próximos anos. Modelos de negócio que ainda não deram lucro, mas que têm uma grande história para contar, ficarão mais caros para todo mundo.

Para o investidor brasileiro, o impacto é indireto mas real. Fundos globais que alocam em ativos de risco tendem a se reposicionar em torno de grandes eventos como esse. Se o IPO for bem e drenar capital de outros mercados emergentes, pode pressionar ainda mais o real e dificultar a vida de empresas brasileiras que dependem de funding externo.

Há também a dimensão geopolítica. A SpaceX já controla boa parte da infraestrutura de lançamentos espaciais do planeta. O Starlink está presente em mais de 100 países. Quando essa empresa abrir capital, parte do poder sobre quem tem acesso à conectividade orbital passa a ser negociada diariamente na bolsa. Isso é diferente de qualquer coisa que já vimos.

O IPO ainda não tem data oficial confirmada, mas todas as indicações apontam para os próximos meses. Quando acontecer, vai ser impossível ignorar.