Durante anos, os COEs viveram uma espécie de era de ouro no Brasil.
Os Certificados de Operações Estruturadas prometiam algo sedutor para investidores: acesso a estratégias sofisticadas, exposição a ações, moedas ou índices globais e, em muitos casos, proteção do capital investido.
Mas uma combinação de juros elevados, mudanças regulatórias e, principalmente, a crise da Ambipar está forçando bancos e distribuidoras a repensarem completamente esse mercado.
O resultado é um redesenho profundo de uma indústria que movimenta dezenas de bilhões de reais e que se tornou uma importante fonte de receitas para instituições financeiras.
O que a Ambipar tem a ver com isso?
Mais do que parece.
A recuperação judicial da Ambipar se transformou em um dos eventos mais traumáticos recentes para parte dos investidores de COEs. Isso porque diversos produtos estruturados distribuídos por bancos e plataformas utilizavam ações da empresa como ativo de referência. Quando a companhia entrou em crise e passou a enfrentar questionamentos sobre sua situação financeira, muitos desses produtos registraram perdas relevantes e chamaram a atenção de reguladores e investidores para riscos que frequentemente passavam despercebidos.
O episódio teve um efeito semelhante ao que grandes crises corporativas costumam produzir nos mercados financeiros.
De repente, perguntas que raramente eram feitas passaram a ser feitas por todos.
Quem está assumindo o risco?
O investidor entende realmente a estrutura do produto?
Os cenários negativos estão suficientemente claros?
Os juros altos também mudaram a equação
Existe um segundo fator pressionando o setor.
A Selic continua em níveis elevados e isso alterou profundamente o comportamento dos investidores brasileiros. Com aplicações conservadoras entregando retornos atraentes, muitos clientes passaram a questionar se vale a pena assumir estruturas mais complexas para buscar ganhos adicionais.
Isso reduz uma das principais vantagens comerciais dos COEs.
Em um ambiente de juros baixos, a promessa de retornos diferenciados se torna mais atraente.
Em um ambiente de juros altos, a comparação com produtos tradicionais de renda fixa fica mais difícil.
A regulação está apertando
Ao mesmo tempo, novas exigências regulatórias vêm aumentando o escrutínio sobre produtos estruturados.
O objetivo é garantir que investidores compreendam melhor os riscos envolvidos e que a venda desses instrumentos esteja mais alinhada ao perfil de cada cliente.
Para bancos e corretoras, isso significa processos mais rigorosos de suitability, transparência e documentação.
Na prática, vender um COE está ficando mais trabalhoso do que era alguns anos atrás.
E isso impacta diretamente o volume de emissões.
O mercado não está morrendo. Está evoluindo.
Apesar dos desafios, poucos especialistas acreditam que os COEs desaparecerão.
O que está acontecendo é uma mudança de perfil.
Produtos excessivamente complexos ou difíceis de explicar tendem a perder espaço.
Estruturas mais simples, transparentes e ligadas a temas facilmente compreendidos pelos investidores devem ganhar relevância.
É um movimento semelhante ao que ocorreu em outros segmentos financeiros após crises anteriores.
Primeiro vem o choque.
Depois vem a simplificação.
Por fim, surge um mercado mais maduro.
O impacto para bancos e assessores
A transformação também afeta quem distribui esses produtos.
Durante anos, COEs representaram uma importante ferramenta comercial para bancos, corretoras e assessores de investimentos.
Agora, essas instituições precisam dedicar mais tempo à educação financeira dos clientes e à explicação detalhada dos riscos envolvidos.
Em outras palavras:
A venda baseada apenas em potencial de retorno está perdendo espaço.
A transparência está se tornando uma exigência competitiva.
Por que isso importa
Porque o que está acontecendo com os COEs é parte de uma mudança maior no mercado financeiro brasileiro.
A combinação de juros altos, maior fiscalização e casos emblemáticos como a crise da Ambipar está forçando investidores e instituições a reavaliar como riscos são apresentados e precificados.
Os produtos estruturados não devem desaparecer.
Mas a era em que complexidade era vendida como sofisticação pode estar chegando ao fim.
E, para muitos investidores, isso pode ser uma boa notícia.
