Havia uma tendência: computadores ficavam mais potentes e, com o tempo, mais baratos.

Essa dinâmica pode estar chegando ao fim.

Nesta semana, Apple e Microsoft anunciaram aumentos de preços em alguns de seus principais produtos, atribuindo a decisão ao mesmo fator: a explosão da demanda por chips de memória e armazenamento impulsionada pela inteligência artificial. O movimento é um dos primeiros sinais concretos de que o boom da IA está deixando de afetar apenas empresas de tecnologia e começando a pesar diretamente no bolso dos consumidores.

Até aqui, a discussão sobre IA girava em torno de produtividade, empregos e novos produtos.

Agora, ela também envolve inflação.

A corrida por chips está mudando a economia

Os grandes laboratórios de IA e empresas de computação em nuvem estão investindo centenas de bilhões de dólares na construção de data centers capazes de treinar e operar modelos cada vez mais sofisticados.

O problema é que esses centros de dados consomem exatamente os mesmos componentes utilizados em computadores, tablets, videogames e outros eletrônicos de consumo: chips de memória e armazenamento.

Com a demanda disparando muito mais rápido do que a capacidade de produção, os preços desses componentes subiram para níveis inéditos. Apple afirmou que absorveu parte desses custos durante meses, mas que chegou a um ponto em que não seria mais possível evitar reajustes.

É uma inversão importante.

Durante décadas, a indústria de tecnologia foi uma força deflacionária, tornando produtos eletrônicos mais acessíveis ano após ano. A inteligência artificial pode estar inaugurando o movimento contrário.

O impacto já começou a aparecer

A Apple elevou os preços de diversos modelos de MacBooks e iPads, com reajustes que chegam a 25% em alguns equipamentos. A Microsoft também anunciou aumentos para determinados modelos do Xbox, alegando que os custos de memória e armazenamento mais do que dobraram e devem continuar subindo nos próximos anos.

Embora smartphones ainda tenham escapado desta rodada de reajustes, analistas acreditam que eles também podem ser afetados caso a pressão sobre a cadeia de suprimentos continue.

Em outras palavras, o computador que você compra para trabalhar pode estar competindo pelos mesmos chips usados para treinar a próxima geração de modelos de IA.

A IA está criando uma nova pressão inflacionária

Essa mudança ajuda a explicar por que economistas começaram a acompanhar o setor com mais atenção.

Segundo dados citados pelo Axios, os preços de softwares e acessórios de informática registraram alta de 14,5% em maio na comparação anual, interrompendo uma tendência de décadas de queda nos preços de produtos tecnológicos.

É um efeito curioso.

Até agora, muitos temiam que a IA pressionasse o mercado de trabalho ou substituísse profissionais.

O primeiro impacto econômico mais visível pode estar acontecendo em outro lugar: na inflação de produtos tecnológicos.

O gargalo não será resolvido rapidamente

A boa notícia é que fabricantes de chips estão investindo pesado para ampliar a produção.

A má notícia é que construir uma fábrica de semicondutores leva anos e custa dezenas de bilhões de dólares.

Enquanto isso, empresas como OpenAI, Microsoft, Google, Meta e Amazon continuam expandindo seus data centers em ritmo acelerado, mantendo a pressão sobre a cadeia global de componentes.

Isso significa que a disputa por memória, armazenamento e capacidade computacional deve continuar intensa pelos próximos anos.

Por que isso importa

A revolução da inteligência artificial costuma ser apresentada como uma promessa de ganhos de produtividade e redução de custos.

Paradoxalmente, ela também está tornando alguns produtos mais caros.

Os aumentos anunciados por Apple e Microsoft mostram que o custo da infraestrutura necessária para sustentar a IA já começou a se espalhar pela economia. Consumidores talvez ainda não percebam esse efeito ao usar um chatbot, mas podem senti-lo quando forem comprar um novo computador, tablet ou videogame.

Se a demanda por IA continuar crescendo no ritmo atual, essa pode ser apenas a primeira onda de reajustes.

A inteligência artificial promete mudar muita coisa.

Agora sabemos que os preços também fazem parte dessa lista.