A rede Giraffas traçou uma meta audaciosa para 2026: alcançar o faturamento histórico de R$ 1,1 bilhão. Para engolir a concorrência e engordar o caixa, o plano de negócios do CEO e fundador Carlos Guerra não envolve nenhuma tecnologia secreta do Vale do Silício, mas sim o corte de carne mais sagrado do país. O Giraffas está expandindo agressivamente a picanha no cardápio do seu tradicional prato feito (PF). A ideia é fazer com que a iguaria represente sozinha 10% de todas as vendas da marca este ano.

Por que isso importa

Enquanto o McDonald's tenta te convencer a comer um hambúrguer gourmet com nome francês e o Madero briga pelas margens do cheeseburger, o Giraffas sabe exatamente com quem está falando. O brasileiro gosta é de arroz, feijão e carne. Carlos Guerra foi cirúrgico ao apontar que o consumidor tem uma relação puramente emocional e "aspiracional" com a picanha. Com a inflação de alimentos acumulando alta nos últimos anos, a rede percebeu que o público de renda média ficou espremido, enquanto as classes mais altas passaram a enxergar o PF de picanha como uma alternativa barata e honesta de refeição rápida fora de casa.

O milagre da multiplicação dos bifes

A estratégia de transformar a picanha no grande chamariz da marca — algo inédito para uma rede que sempre apostou na diversidade caótica do cardápio — funcionou tão bem que o volume de vendas do corte quase triplicou. A sacada foi abrir o leque: agora existe desde uma versão mais barata em tiras até uma linha premium de R$ 64. Isso fez o tíquete médio das lojas romper a barreira dos R$ 50.

Para sustentar as 400 unidades espalhadas pelo país e alimentar os 1,5 milhão de PFs vendidos por mês, a operação logística é de gigante. A empresa consome anualmente 6 mil toneladas de arroz e feijão, além de montanhas mensais de frango e bacon. O plano de expansão para este ano ainda inclui a abertura de mais de 30 novos restaurantes (com foco em lojas de rua, que faturam mais que as de shopping) e um investimento de R$ 8,5 milhões para tentar digitalizar os clientes, já que os canais digitais hoje representam pífios 10% da receita.

O fundador justificou a escolha do corte com uma cutucada fina no mercado gourmet: "Metade do nosso público teria dificuldade de entender o que é um bife de Ancho". No Brasil profundo, o marketing da sofisticação perde de lavada para o comercial da gordurinha bem tostada.

Se os políticos passam o ano prometendo picanha e entregando imposto, o Giraffas resolveu assumir a responsabilidade social de cumprir a profecia diretamente na praça de alimentação. É o capitalismo estofado com farofa.