Durante mais de uma década, a Venezuela foi um mercado que muitas empresas preferiram esquecer.

A combinação de crise econômica, hiperinflação, instabilidade política, controles cambiais e sanções internacionais transformou um país que já foi um dos principais parceiros comerciais do Brasil em um destino considerado de alto risco para investimentos. Diversas companhias reduziram operações, interromperam exportações ou simplesmente abandonaram planos de expansão.

Agora, porém, o cenário começa a mudar.

Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg Línea, empresas brasileiras de diferentes setores voltaram a prospectar oportunidades de negócios na Venezuela, impulsionadas pela perspectiva de reabertura econômica do país e pela expectativa de novos investimentos em infraestrutura, energia, comércio e serviços. O movimento ainda é inicial, mas reflete a percepção crescente de que o país vizinho pode estar entrando em um novo ciclo econômico após anos de isolamento.

A Venezuela voltou ao radar corporativo

O interesse não surge por acaso.

Desde o início do ano, a Venezuela passou a atrair uma nova onda de investidores internacionais após mudanças políticas e o relaxamento gradual de algumas restrições econômicas. Executivos, fundos de investimento e empresas dos setores de energia, infraestrutura e serviços vêm realizando visitas frequentes ao país para avaliar oportunidades que ficaram congeladas durante anos.

Para empresas brasileiras, existe um fator adicional: a proximidade geográfica.

Diferentemente de mercados distantes que exigem grandes estruturas de distribuição, a Venezuela está na fronteira norte do Brasil e possui histórico relevante de integração comercial com estados como Roraima, Amazonas e Pará. Isso reduz barreiras logísticas e torna uma eventual retomada dos negócios mais rápida do que em outros mercados internacionais.

O petróleo lidera o interesse

Entre todos os setores, energia aparece como o principal foco de atenção.

A Venezuela continua possuindo uma das maiores reservas de petróleo do mundo, mas grande parte de sua infraestrutura foi sucateada após anos de falta de investimentos. A expectativa de abertura do mercado vem atraindo empresas interessadas em participar da reconstrução da cadeia energética do país.

Companhias brasileiras ligadas ao setor de óleo e gás já avaliam oportunidades em exploração, serviços especializados, logística e manutenção industrial. O raciocínio é relativamente simples: caso a produção venezuelana volte a crescer de forma consistente, haverá demanda por fornecedores, prestadores de serviços e parceiros tecnológicos capazes de acelerar essa recuperação.

Não é só petróleo

O interesse, porém, vai muito além da energia.

Setores como varejo, cosméticos, calçados, alimentos e serviços financeiros também acompanham os desdobramentos. Empresas que já tiveram presença relevante na Venezuela antes da crise enxergam a possibilidade de reconstruir canais de distribuição e recuperar relações comerciais que foram interrompidas ao longo da última década.

A fabricante de calçados Bibi, por exemplo, afirmou à Bloomberg Línea que a Venezuela já esteve entre seus principais mercados internacionais e que uma eventual estabilização econômica poderia abrir espaço para uma retomada mais forte das exportações. O mesmo raciocínio vale para empresas de bens de consumo, que enxergam um mercado de mais de 30 milhões de habitantes com demanda reprimida após anos de dificuldades econômicas.

Oportunidade grande, risco ainda maior

Apesar do entusiasmo, ninguém parece disposto a fazer apostas precipitadas.

Executivos e investidores destacam que a recuperação da Venezuela ainda depende de fatores fundamentais como estabilidade institucional, segurança jurídica, controle da inflação e previsibilidade regulatória. Em outras palavras, existe interesse, mas ainda não existe confiança plena.

Esse ponto é importante porque muitas empresas carregam lembranças de experiências difíceis no país. Ao longo dos anos, companhias estrangeiras enfrentaram problemas relacionados a pagamentos, nacionalizações, restrições cambiais e mudanças abruptas de regras. Mesmo com um cenário mais favorável, reconstruir essa confiança levará tempo.

Uma das maiores oportunidades da América Latina

Ainda assim, poucos mercados oferecem um potencial de recuperação tão significativo.

Após mais de uma década de crise profunda, praticamente todos os setores da economia venezuelana demandam investimentos. Infraestrutura, energia, telecomunicações, varejo, construção civil, logística e serviços financeiros apresentam déficits acumulados que podem exigir centenas de bilhões de dólares ao longo dos próximos anos.

É justamente esse contraste que chama a atenção dos empresários: quanto maior foi a deterioração econômica, maior pode ser o espaço para crescimento caso a estabilização se consolide.

Por que isso importa

A Venezuela está deixando de ser vista apenas como uma crise geopolítica e voltando a ser analisada como uma oportunidade de negócios.

O movimento ainda é embrionário e cercado de incertezas, mas o simples fato de empresas brasileiras estarem voltando a estudar investimentos e expansão no país mostra como a percepção de risco começou a mudar. Para setores como energia, infraestrutura e bens de consumo, a reabertura venezuelana pode representar uma das maiores oportunidades de crescimento da América Latina nesta década.

A questão agora não é se existe interesse.

É se a Venezuela conseguirá criar as condições necessárias para transformar esse interesse em investimento real.