A Raízen deu o seu passo mais contundente até aqui para estancar a crise que vem pressionando sua estrutura de capital.

A joint venture controlada pela Cosan e pela Shell anunciou a assinatura de um contrato vinculante para a venda de 100% de suas operações de downstream (refino e distribuição de combustíveis) na Argentina. O negócio foi fechado pelo valor econômico de US$ 1,42 bilhão com a gigante suíça de commodities Mercuria Energy Group, que realiza a operação em consórcio com a argentina Integra Capital, transferindo ativos estratégicos como a refinaria de Dock Sud, em Buenos Aires, e a rede de postos local.

O movimento ocorre em um momento crítico, logo após a companhia ter seu plano de recuperação extrajudicial aceito pela Justiça brasileira para renegociar uma dívida sufocante.

Alívio no balanço e os termos do acordo

A engenharia financeira por trás da transação foi desenhada para trazer um alívio imediato aos indicadores de endividamento da empresa, cuja alavancagem escalou para patamares considerados de alto risco pelo mercado.

O valor total da operação combina um robusto pagamento em caixa a ser realizado na data de fechamento do negócio (sujeito aos ajustes usuais de balanço) e, crucialmente, a assunção integral do endividamento da Raízen Argentina por parte do comprador. Os recursos líquidos que entrarem no caixa serão carimbados prioritariamente para amortizar passivos e reestruturar a dívida consolidada da matriz.

A conclusão efetiva da transferência está prevista para acontecer ainda dentro do atual ano-safra, dependendo agora das aprovações regulatórias e judiciais cabíveis nos dois países.

Foco total no core business e no mercado brasileiro

A saída estratégica do mercado argentino sinaliza uma mudança profunda na tese de alocação de capital da Raízen, que passa a priorizar a simplificação de sua pegada geográfica.

Ao se desfazer da operação internacional de refino, a companhia limpa o balanço e passa a concentrar seus esforços e investimentos em suas frentes mais rentáveis e com vantagens competitivas claras no Brasil: a produção de açúcar, etanol de segunda geração (E2G), bioenergia e sua forte rede de distribuição de combustíveis doméstica.

Para a Mercuria, a aquisição acelera sua presença na América Latina, integrando uma rede de distribuição consolidada à sua infraestrutura de exploração de óleo e gás que já opera na promissora região de Vaca Muerta, na Patagônia.