O mercado de baterias elétricas no Brasil está em plena efervescência, com um boom de vendas que surpreende até os mais otimistas. Conhecidos pela sigla BESS (Battery Energy Storage Systems), esses sistemas de armazenamento de energia elétrica estão se tornando um componente crucial para a infraestrutura energética do país, impulsionados principalmente pelo mercado de varejo.

Enquanto o governo planeja leilões de grande porte para dezembro – que, aliás, enfrentam algumas incertezas – o mercado de instalações menores em indústrias, comércios, condomínios e residências já decolou. Muitas dessas instalações estão associadas a sistemas de energia solar em telhados, criando uma sinergia que acelera a adoção da tecnologia.

Crescimento Exponencial e Novas Marcas

Os números falam por si: em 2025, o volume de BESS vendidos e contratados atingiu impressionantes 730 MWh, um valor que supera o acumulado dos cinco anos anteriores. E a tendência de alta continua forte. Só no primeiro semestre deste ano, foram mais 504 MWh, colocando o setor a caminho de uma nova marca histórica, conforme dados da consultoria Greener.

Marcio Takata, CEO da Greener, destaca a importância desse movimento: “O leilão é importante, claro, mas o BESS de uma forma distribuída, vamos chamar assim, vai ser em minha visão uma das grandes fontes de flexibilidade para o sistema elétrico no País.” Ele faz um paralelo com a energia solar, que também começou com leilões governamentais, mas disparou com as pequenas instalações em telhados e miniusinas, hoje somando mais de 53 gigawatts em geração distribuída.

O Papel do Varejo e a Aposta das Grandes Empresas

Atualmente, o acumulado em sistemas de baterias no Brasil é de 1,9 GWh. Empresas como WEG e Grupo Moura já estão apostando pesado no setor, reconhecendo o potencial de crescimento. O leilão de dezembro, se concretizado, deve contratar pelo menos 2 gigawatts para operação diária de 4 horas, o que equivale a 8 GWh, embora o mercado espere volumes ainda maiores.

Além disso, o Ministério de Minas e Energia programou leilões anuais até 2029 para contratar reserva de capacidade, onde os sistemas de baterias competirão com termelétricas e hidrelétricas. Essa reserva de capacidade é vital para estabilizar a rede elétrica, que sofre com a intermitência da geração eólica e solar, evitando o chamado curtailment (paradas forçadas de usinas devido ao excesso de energia).

Desafios e o Cenário do Leilão

Apesar do entusiasmo e do interesse de investidores, o leilão de dezembro enfrenta um desafio significativo: a discussão sobre quem pagará os custos dos projetos de armazenamento. A legislação atual prevê o rateio dos custos entre todas as empresas de geração, uma regra que tem gerado ameaças de judicialização.

Empresas do setor estão se articulando para convencer o governo a apoiar a aprovação de um projeto de lei do deputado Arnaldo Jardim. Este projeto alteraria a lei para repassar a conta aos consumidores, um modelo já adotado em outros leilões do mercado de energia. A resolução dessa questão é crucial para o avanço dos grandes projetos de BESS no país.

Por que isso importa?

O avanço dos sistemas de baterias elétricas é um divisor de águas para a segurança energética do Brasil. Com a crescente participação de fontes renováveis como a solar e a eólica, que são intermitentes, as baterias oferecem a flexibilidade necessária para armazenar energia quando há excesso e liberá-la quando a demanda é alta. Isso não só otimiza o uso da energia gerada, como também contribui para a estabilidade da rede e a redução de custos a longo prazo. Além disso, a descentralização da energia com sistemas BESS em residências e comércios empodera o consumidor e cria novas oportunidades de negócio, impulsionando a inovação e a sustentabilidade no setor elétrico brasileiro.