Existe uma cena que está se repetindo nos maiores bancos do mundo.
Executivos de tecnologia recebem ligações de recrutadores oferecendo salários milionários, bônus agressivos e acesso direto ao CEO. O objetivo não é contratar um novo diretor financeiro, chefe de risco ou executivo de investimentos.
A função mais disputada do momento atende por outro nome:
Chief AI Officer.
Há apenas um ano, esse cargo praticamente não existia. Hoje, bancos como HSBC, Lloyds Banking Group e Commonwealth Bank da Austrália estão correndo para preencher posições de liderança dedicadas exclusivamente à inteligência artificial. Em alguns casos, os pacotes de remuneração podem chegar perto de US$ 3,5 milhões anuais, refletindo uma combinação rara de escassez de talentos, urgência estratégica e incerteza sobre o futuro da tecnologia.
Mas existe uma ironia fascinante nessa corrida.
Muitos dos profissionais que estão sendo contratados para liderar a revolução da IA acreditam que seus próprios cargos podem desaparecer.
A profissão mais quente de 2026 talvez seja temporária
Em quase toda revolução tecnológica surge uma função intermediária.
Alguém precisa traduzir a nova tecnologia para o resto da organização. Alguém precisa definir prioridades, convencer executivos, criar processos, estabelecer governança e evitar que a empresa adote ferramentas de forma caótica.
É exatamente esse papel que os chefes de IA estão desempenhando hoje.
O problema é que essa função pode não ser permanente.
David Hardoon, que deixou recentemente o Standard Chartered após atuar como líder global de IA, resumiu essa visão de forma provocativa. Segundo ele, qualquer Chief AI Officer deveria partir do princípio de que não terá um emprego no futuro.
A lógica é simples.
Ninguém tem um "diretor de Excel".
Ninguém tem um "diretor de e-mail".
Ninguém tem um "diretor de smartphones".
Quando uma tecnologia se torna parte da infraestrutura básica de uma organização, ela deixa de justificar uma liderança própria.
Ela simplesmente passa a fazer parte do trabalho de todos.
Os bancos estão comprando velocidade
Apesar dessa perspectiva, a demanda continua explodindo.
Segundo pesquisa da IBM com 2 mil CEOs em 33 países, a proporção de empresas que possuem um líder dedicado à inteligência artificial saltou de 26% para 76% em apenas um ano. É uma das transformações organizacionais mais rápidas já registradas em cargos executivos.
O motivo é relativamente óbvio.
Nenhum banco quer correr o risco de ficar para trás.
A inteligência artificial está deixando de ser uma ferramenta experimental e se tornando uma tecnologia capaz de impactar praticamente todas as áreas de uma instituição financeira: atendimento ao cliente, concessão de crédito, prevenção a fraudes, gestão de risco, compliance, investimentos, análise de mercado e produtividade interna.
Nesse contexto, não ter uma estratégia clara de IA passou a ser visto como um risco corporativo.
E a forma mais rápida de sinalizar comprometimento é contratar alguém para liderar essa transformação.
O problema é que ninguém sabe exatamente o que esse profissional deve fazer
Talvez o aspecto mais curioso dessa nova profissão seja que nem as empresas parecem concordar sobre qual é sua função.
Em algumas instituições, o chefe de IA atua como estrategista, definindo prioridades e coordenando iniciativas espalhadas por diferentes áreas.
Em outras, funciona quase como um executivo de transformação digital, supervisionando treinamento, adoção de ferramentas e mudanças culturais.
Há também casos em que o cargo se aproxima do papel de um CTO especializado, com foco em infraestrutura tecnológica, modelos e implementação de agentes.
Essa indefinição é típica de tecnologias emergentes.
O mercado sabe que precisa da função.
Mas ainda está descobrindo exatamente para que ela serve.
A corrida por talentos lembra os primeiros anos da nuvem
Quem viveu a ascensão da computação em nuvem ou da transformação digital provavelmente reconhece o padrão.
Quando uma nova tecnologia surge, a demanda por especialistas cresce muito mais rápido do que a oferta.
É exatamente o que está acontecendo agora.
Segundo dados do LinkedIn, cargos ligados à liderança em IA estão entre os que mais crescem em mercados como Singapura, enquanto empresas disputam um grupo relativamente pequeno de profissionais que combinam conhecimento técnico, visão estratégica e experiência executiva.
O resultado inevitável é inflação salarial.
A Equilar estima que a remuneração mediana desses executivos já gira em torno de US$ 1,6 milhão por ano, enquanto os profissionais mais disputados podem se aproximar dos US$ 3,5 milhões.
Para muitas empresas, esse valor é visto como um seguro.
O custo de contratar o profissional errado pode ser muito menor do que o custo de ficar para trás na corrida da IA.
O destino final é a invisibilidade
Existe, porém, um consenso interessante entre muitos dos líderes que hoje ocupam esses cargos.
A maioria acredita que o sucesso da inteligência artificial acabará tornando suas funções desnecessárias.
Ranil Boteju, que deixou o Lloyds para se tornar o primeiro diretor de IA do Commonwealth Bank, acredita que a tecnologia seguirá um caminho semelhante ao da eletricidade.
No início, eletricidade era uma novidade.
Depois se tornou infraestrutura.
Hoje ninguém pensa nela conscientemente.
Ela simplesmente existe.
Boteju acredita que o mesmo acontecerá com a inteligência artificial.
Daqui a uma década, segundo ele, a IA estará integrada a praticamente todos os processos de um banco. Não haverá uma área específica de inteligência artificial porque toda a organização funcionará sobre inteligência artificial.
A tecnologia deixará de ser um projeto.
Passará a ser ambiente.
As universidades já estão vendendo o futuro
O mercado está tão aquecido que escolas de negócios começaram a criar programas específicos para formar futuros chefes de IA.
Universidades como Chicago Booth, Duke, Cornell e Michigan lançaram cursos voltados para executivos que desejam adquirir competências relacionadas à gestão de inteligência artificial. Alguns programas custam dezenas de milhares de dólares e atraem CEOs, fundadores, diretores de estratégia e líderes corporativos interessados em entender como a tecnologia está redesenhando empresas.
Isso revela algo importante.
O cargo de Chief AI Officer pode até ser temporário.
Mas as habilidades associadas a ele provavelmente não serão.
Por que isso importa
A explosão dos cargos de liderança em IA mostra que a inteligência artificial entrou em uma nova fase dentro das empresas.
O debate já não gira em torno de experimentar ferramentas ou testar pilotos.
Agora a questão é como reorganizar negócios inteiros em torno dessa tecnologia.
Mas existe um paradoxo interessante.
Os executivos mais valorizados do momento estão sendo contratados justamente para acelerar um processo que pode tornar seus próprios cargos irrelevantes.
Se a IA realmente se tornar tão comum quanto eletricidade, internet ou smartphones, ela deixará de precisar de um departamento próprio.
E esse talvez seja o sinal definitivo de sucesso da tecnologia.
Quando ninguém mais falar sobre inteligência artificial.
Porque ela estará em todo lugar.
