Se você olhar apenas para os números dos últimos anos, a conclusão parece óbvia. O mercado brasileiro de IPOs morreu.

Desde o fim do boom de 2020 e 2021, praticamente nenhuma grande abertura de capital conseguiu ganhar tração. A combinação de juros elevados, crescimento econômico limitado, menor apetite ao risco e uma série de IPOs que decepcionaram investidores criou um ambiente extremamente difícil para novas listagens. Muitas empresas que planejavam estrear na Bolsa congelaram seus planos. Outras simplesmente desistiram. Algumas optaram por buscar recursos em fundos de private equity ou no mercado de dívida.

Por isso, consolidou-se uma narrativa bastante popular entre investidores: o problema da Bolsa brasileira é a falta de empresas dispostas a abrir capital.

A própria B3 discorda.

Segundo André Milanez, CFO da Bolsa, existe atualmente uma fila entre 50 e 100 companhias prontas para realizar IPO. Muitas delas já possuem estrutura de governança preparada, auditorias concluídas, documentação organizada e até registro aprovado na CVM. Na visão da B3, o gargalo não está na quantidade de empresas interessadas em acessar o mercado de capitais. O gargalo está do outro lado da mesa: nos investidores. ([neofeed.com.br](https://neofeed.com.br/videos/numeros-falam/a-fila-existe-b3-diz-ter-ate-100-empresas-prontas-para-abrir-capital/?utm_source=chatgpt.com))

A afirmação muda completamente a forma de interpretar o momento atual.

Porque sugere que o mercado de IPOs não desapareceu.

Ele está em espera.

Existe uma fila invisível observando o mercado

Quando se fala em empresas prontas para abrir capital, muita gente imagina negócios que ainda estão avaliando essa possibilidade.

Não parece ser esse o caso.

Segundo Milanez, parte relevante dessas companhias já passou pelas etapas mais complexas do processo. Isso significa contratação de bancos coordenadores, reorganização societária, implementação de práticas de governança, auditorias financeiras, preparação de prospectos e, em muitos casos, até obtenção do registro necessário junto aos órgãos reguladores. ([neofeed.com.br](https://neofeed.com.br/videos/numeros-falam/a-fila-existe-b3-diz-ter-ate-100-empresas-prontas-para-abrir-capital/?utm_source=chatgpt.com))

Em outras palavras, essas empresas já investiram tempo, dinheiro e energia para chegar até a porta da Bolsa.

Elas simplesmente decidiram não atravessá-la ainda.

Isso é importante porque mostra que existe uma espécie de mercado paralelo invisível ao público. Enquanto investidores observam a ausência de IPOs e concluem que não há candidatos, dezenas de companhias continuam acompanhando indicadores econômicos, monitorando o humor dos investidores e aguardando uma janela mais favorável para apertar o gatilho.

A fila existe.

Ela apenas não está andando.

O problema está no custo de oportunidade

Para entender por que isso acontece, é preciso olhar para a renda fixa.

Durante grande parte da última década, vender uma história de crescimento era relativamente simples. Com juros baixos, investidores precisavam buscar retorno em ativos mais arriscados. Isso ajudava a impulsionar ações, fundos imobiliários, venture capital e IPOs.

Hoje a situação é diferente.

Quando um investidor consegue obter retornos elevados em títulos públicos ou produtos bancários de baixo risco, o incentivo para apostar em empresas recém-listadas diminui drasticamente.

Essa dinâmica afeta diretamente o mercado de capitais.

Um IPO não compete apenas com outras ações.

Ele compete com o CDI.

Compete com títulos públicos.

Compete com CDBs.

Compete com qualquer alternativa capaz de oferecer retorno satisfatório sem a volatilidade associada à Bolsa.

Enquanto essa equação permanecer desfavorável, muitas empresas continuarão esperando.

Não porque não querem abrir capital.

Mas porque sabem que dificilmente conseguirão uma avaliação considerada justa.

A memória dos IPOs de 2021 ainda pesa

Existe também um componente psicológico que costuma receber menos atenção.

O último grande ciclo de IPOs no Brasil deixou cicatrizes.

Diversas empresas estrearam na Bolsa em avaliações extremamente otimistas e acabaram entregando resultados abaixo das expectativas. Em muitos casos, investidores que participaram das ofertas acumularam perdas significativas nos anos seguintes.

Isso criou uma espécie de trauma coletivo.

Quando uma nova empresa anuncia intenção de abrir capital, a reação automática de muitos investidores já não é entusiasmo.

É ceticismo.

O mercado passou a exigir mais histórico operacional, mais previsibilidade de receita, mais geração de caixa e menos promessas sobre crescimento futuro.

Para as empresas da fila, isso significa que o desafio não é apenas captar recursos.

É convencer investidores de que não repetirão os erros da última geração de IPOs.

Alguns sinais começam a mudar

Apesar das dificuldades, existem indícios de que o ambiente está ficando menos hostil.

A retomada gradual do fluxo estrangeiro para ações brasileiras, a perspectiva de queda dos juros ao longo dos próximos ciclos e algumas operações recentes bem-sucedidas começaram a melhorar o humor do mercado. O IPO da Compass, citado por Milanez, foi visto como um dos primeiros sinais de que investidores voltaram a considerar novas ofertas depois de um longo período de paralisação.

Isso não significa que uma enxurrada de IPOs está prestes a acontecer.

Mas sugere que algumas das condições necessárias para reabrir o mercado estão começando a aparecer.

Historicamente, esses movimentos costumam acontecer de forma gradual no início e acelerar rapidamente depois.

Quando a confiança retorna, o mercado pode mudar de humor em poucos meses.

Existe uma demanda reprimida acumulada

Talvez o dado mais interessante dessa história seja que a ausência de IPOs não interrompeu o crescimento das empresas.

Enquanto o mercado de capitais permanecia fechado, muitas companhias continuaram expandindo operações, adquirindo concorrentes, lançando produtos e buscando novas fontes de financiamento.

Mas existe um limite para isso.

Private equity não substitui completamente o mercado acionário.

Dívida não substitui capital permanente.

Rodadas privadas não oferecem a mesma liquidez que uma listagem pública.

Por isso, a fila mencionada pela B3 pode ser interpretada como uma espécie de energia acumulada.

São anos de empresas esperando uma oportunidade melhor.

Quando ela aparecer, a quantidade de ofertas pode surpreender.

Por que isso importa

Porque a história muda completamente dependendo de onde está o gargalo.

Se o problema fosse a falta de empresas preparadas, a recuperação do mercado de IPOs dependeria de anos de construção de novos candidatos.

Mas se a B3 estiver correta, a situação é muito diferente.

As empresas já existem.

Elas já estão preparadas.

Elas já fizeram o trabalho mais difícil.

O que falta é uma mudança nas condições de mercado que convença investidores a voltar a financiar crescimento via Bolsa.

Isso significa que o mercado brasileiro pode estar muito mais próximo de uma retomada do que as manchetes sugerem.

Porque construir uma fila de 100 empresas leva anos.

Recuperar o apetite dos investidores pode levar apenas alguns trimestres.

E, quando isso acontecer, a fila já estará pronta para andar.