Durante décadas, havia poucas apostas mais seguras no mercado japonês do que acreditar na liderança da Toyota.

A montadora se tornou um símbolo da força industrial do país, liderando rankings de valor de mercado, exportações e inovação. Mas, nesta semana, algo mudou.

A Kioxia, fabricante de chips de memória que até poucos anos atrás fazia parte da Toshiba, ultrapassou a Toyota e se tornou a empresa mais valiosa do Japão em valor de mercado. A companhia alcançou uma capitalização superior a ¥44 trilhões (cerca de US$ 274 bilhões), impulsionada por uma valorização explosiva de suas ações em meio ao boom global da inteligência artificial.

A mudança é simbólica porque vai muito além de uma troca de posições em um ranking.

Ela mostra como a IA está redesenhando a hierarquia corporativa de algumas das maiores economias do mundo.

A ascensão parece repentina. Mas levou anos para acontecer.

A história da Kioxia é uma das mais improváveis do mercado japonês.

A empresa nasceu a partir da divisão de memória da Toshiba, companhia que foi pioneira na invenção da memória flash nos anos 1980. Em 2018, durante uma grave crise financeira da Toshiba, o negócio foi vendido para um consórcio liderado pela Bain Capital por cerca de US$ 18 bilhões. Na época, poucos imaginavam que aquele ativo se tornaria um dos maiores vencedores da era da inteligência artificial.

Os anos seguintes foram marcados por tentativas frustradas de venda, adiamentos de IPO e incertezas sobre o futuro da companhia. Quando finalmente abriu capital, em dezembro de 2024, a empresa foi avaliada em cerca de US$ 5 bilhões. Menos de dois anos depois, já vale mais de cinquenta vezes esse montante.

A IA criou uma nova corrida do ouro

O motivo da disparada está diretamente ligado à inteligência artificial.

Enquanto empresas como Nvidia se tornaram sinônimo dos chips responsáveis pelo processamento de modelos de IA, a Kioxia ocupa uma posição diferente, mas igualmente importante. A companhia é uma das maiores fabricantes mundiais de memória NAND Flash, tecnologia utilizada para armazenar os volumes gigantescos de dados consumidos por data centers, modelos de IA e infraestrutura em nuvem.

Em termos simples: se os chips da Nvidia são o cérebro da IA, empresas como a Kioxia ajudam a construir sua memória.

Com a explosão dos investimentos em data centers ao redor do mundo, investidores passaram a enxergar a fabricante japonesa como uma das grandes beneficiárias indiretas da revolução da inteligência artificial. O resultado foi uma valorização impressionante. Segundo dados recentes, as ações da companhia acumulam alta superior a 670% neste ano.

O Japão está mudando de cara

Existe uma segunda história escondida por trás da ascensão da Kioxia.

Por décadas, o mercado japonês foi associado a montadoras, bancos, conglomerados industriais e empresas de eletrônicos de consumo. Hoje, cada vez mais o protagonismo está migrando para companhias ligadas a semicondutores, infraestrutura digital e inteligência artificial.

Nas últimas semanas, a Toyota perdeu temporariamente o posto de empresa mais valiosa para a SoftBank. Agora perdeu para a Kioxia. Em ambos os casos, o fator comum foi o mesmo: inteligência artificial.

Isso não significa que a Toyota esteja em declínio.

Significa que os investidores acreditam que os maiores ciclos de crescimento da próxima década estarão concentrados em tecnologia, chips e infraestrutura computacional.

O desafio agora é justificar a euforia

A pergunta inevitável é se essa valorização é sustentável.

O mercado de semicondutores é historicamente conhecido por seus ciclos de expansão e contração. Períodos de forte demanda costumam ser seguidos por excesso de oferta e compressão de margens. O que muitos investidores tentam entender agora é se a inteligência artificial está criando um ciclo diferente dos anteriores ou apenas acelerando temporariamente a demanda.

A própria Kioxia acredita que a procura por memória continuará crescendo nos próximos anos, impulsionada pela construção massiva de data centers e pelo avanço dos modelos de IA. Mas, como toda empresa ligada à infraestrutura tecnológica, ela também precisará provar que consegue transformar entusiasmo dos investidores em crescimento consistente de receitas e lucros.

Por que isso importa

Porque a ascensão da Kioxia mostra que a inteligência artificial não está criando apenas novos produtos.

Ela está criando novos campeões corporativos.

Há poucos anos, a empresa era uma divisão problemática da Toshiba tentando encontrar um caminho para o mercado. Hoje, ela vale mais do que Toyota, Sony e praticamente qualquer outro ícone da economia japonesa.

Mais importante ainda: sua ascensão reforça uma tendência que está se repetindo no mundo inteiro.

Na era da IA, quem controla a infraestrutura, chips, memória, energia e data centers, pode acabar capturando mais valor do que quem constrói os aplicativos que usamos todos os dias.

E a Kioxia acaba de se tornar um dos maiores símbolos dessa mudança.