A inteligência artificial já movimenta trilhões de dólares em investimentos, impulsiona o valor das maiores empresas de tecnologia do planeta e desencadeou uma corrida global por data centers. Mas existe um componente sem o qual nada disso funciona e que está começando a faltar.

Memória.

A Micron, uma das maiores fabricantes mundiais de chips de memória, divulgou resultados acima das expectativas e voltou a impressionar Wall Street. As ações dispararam no pré-mercado, impulsionadas por uma demanda recorde por chips usados em servidores de inteligência artificial. Mas, durante a conferência com investidores, o CEO Sanjay Mehrotra fez um alerta que acabou passando quase despercebido em meio ao entusiasmo: a empresa ainda não consegue enxergar quando a oferta será suficiente para atender a demanda. Na visão da companhia, esse desequilíbrio pode durar até 2028.

Ou seja, o maior gargalo da IA talvez não seja energia, nem talentos, nem software.

Pode ser memória.

Os chips mais valiosos da IA não são apenas os da Nvidia

Quando se fala em infraestrutura para inteligência artificial, a Nvidia costuma monopolizar as manchetes.

Mas os processadores produzidos pela empresa dependem de outro componente para funcionar em alto desempenho: memórias avançadas, como DRAM e NAND Flash.

Esses chips armazenam e movimentam o enorme volume de dados necessário para treinar e operar modelos de IA. Quanto maiores ficam os modelos, maior também é a necessidade de memória de alta velocidade.

É justamente por isso que empresas como Micron, SK Hynix e Samsung passaram a ocupar um lugar central na corrida da inteligência artificial.

Sem elas, os chips mais sofisticados do mundo simplesmente não conseguem entregar todo seu potencial.

O efeito já está chegando ao resto da economia

A escassez de memória não afeta apenas empresas de tecnologia.

Segundo analistas, a competição pelos componentes está elevando custos em diversos setores. Fabricantes de smartphones, automóveis, equipamentos industriais e eletrônicos de consumo enfrentam preços mais altos e prazos maiores para garantir fornecimento.

Os próprios data centers, que sustentam a expansão da IA, também ficaram mais caros para construir.

É um efeito semelhante ao observado durante a pandemia com a falta de semicondutores, mas agora impulsionado por uma força diferente: uma explosão estrutural da demanda, e não uma interrupção temporária da oferta.

Esse cenário começa a preocupar economistas e bancos centrais, que acompanham o impacto da inteligência artificial sobre a inflação.

A corrida agora é para produzir mais rápido

A Micron não está parada.

A empresa investe bilhões de dólares na construção de uma nova megafábrica em Nova York para ampliar sua capacidade de produção. Rivais asiáticas também aceleram investimentos, enquanto a China prepara a abertura de capital de fabricantes como ChangXin Memory Technologies e Yangtze Memory Technologies, em operações que podem se tornar algumas das maiores do mercado chinês nos últimos anos.

Mesmo assim, a expansão leva tempo.

Construir uma fábrica de semicondutores exige dezenas de bilhões de dólares, equipamentos extremamente especializados e anos de execução.

Não é um problema que possa ser resolvido rapidamente.

Os compradores já estão tentando escapar dessa dependência

Enquanto fabricantes de memória correm para ampliar a oferta, os maiores consumidores de IA começaram a buscar alternativas.

OpenAI apresentou recentemente o Jalapeño, um chip desenvolvido em parceria com a Broadcom para executar aplicações de inteligência artificial. Amazon, Google, Microsoft e outras gigantes também investem em semicondutores próprios para reduzir a dependência de fornecedores como Nvidia e AMD.

Mas existe um detalhe importante.

Mesmo chips desenvolvidos internamente continuam precisando de memória.

É justamente por isso que empresas como Micron continuam ocupando uma posição privilegiada dentro da cadeia global de IA.

Por que isso importa

A revolução da inteligência artificial costuma ser explicada por meio de modelos, algoritmos e aplicativos.

Mas a infraestrutura física continua sendo o verdadeiro limite do crescimento.

Nos últimos anos, investidores descobriram que chips são o novo petróleo da economia digital. Agora, o mercado começa a perceber que nem todos os chips são iguais.

Enquanto Nvidia domina o processamento, fabricantes de memória estão se tornando peças igualmente estratégicas — e sua capacidade de produção pode determinar a velocidade com que a IA continuará avançando.

A corrida da inteligência artificial não será vencida apenas por quem construir os melhores modelos.

Também dependerá de quem conseguir fabricar os componentes que mantêm esses modelos funcionando.

E, neste momento, a demanda está crescendo muito mais rápido do que a capacidade de produzi-los.